sexta-feira, 9 de março de 2007

O dia em que ninguém sabia




Os relatos vieram de uma cidadezinha perdida no interior. Não num interior qualquer, no sertão - assim fica mais bucólico. Mas, até onde se sabe, aquele misto de pasmaceira e caos tomou conta do país inteiro.

Os primeiros sintomas foram detectados no bar do Seu Inácio. Justo ali onde não acontecia nada de emocionante há sete anos. Também pudera, o último acontecimento foi emocionante até demais. Ninguém vai se esquecer da feição impregnada de ódio do Seu Heitor, o dono da farmácia, que entrou no bar empunhando um facão e cravou-lhe com uma precisão nunca vista nas costas do pobre Tonho. O coitado até estrebuchou uns minutos no chão, mas morreu logo. Só porque andou espalhando que a mulher do farmacêutico era uma senhora formosa.

Seu Heitor foi preso. E o bar de Seu Inácio parece que ficou parado no tempo. Continuou ali, do mesmo jeitinho. A mesma parede meio azul de tinta, meio verde de mofo. Os mesmos ovos de codorna boiando na conserva. O mesmo quadro desbotado com as imagens da Sagrada Família. O mesmo cachorro que não se cansava de tentar alcançar os mosquitos. E os mesmos fregueses. Mauro, Zinho, Lúcio, Preto, Tales e Pedro. Aliás, foram estes dois últimos que quebraram a tranqüilidade que pairava por ali há sete anos. Quando eles entraram no bar, logo cedo, como de costume, foi Seu Inácio mesmo quem perguntou:
- Quem vai pagar a aposta?
- Que aposta? – interferiu Mauro, sempre desligado.
- E cê num sabe, Mauro? Ontem teve clássico. Se o Galo ganhasse o Tales ia pagar uma caixa de cerveja pro Pedro. Se o Cruzeiro ganhasse, o Pedro pagava uma caixa de cerveja pro Tales. Eu quero é saber logo quem ganhou pra vender minha caixa de cerveja. – explicou, Seu Inácio.
- Eu ainda não sei quem ganhou. Mas só pode ter sido o Galo. – respondeu Pedro, provocativo.
- O jogo não foi transmitido. Como é que a gente vai saber? Melhor cancelar essa aposta. – sugeriu Tales.
- Ah, mas ocê é muito esperto. Sabe que lá em casa não tem televisão. Mas na sua tem. Cê sabe o resultado do jogo e não quer falar porque o Cruzeiro perdeu. – era Pedro, já se exaltando.
- Eu to te falando. Num sei de nada. Ninguém sabe. Pode perguntar. Cê sabe, Mauro? Cê sabe, Zinho.

E assim ficaram os dois, batendo boca por horas a fio, sem que ninguém chegasse a conclusão alguma.

Do outro lado da cidade – que, na verdade, ficava a dois quarteirões do bar - Padre Antônio, que pouco se importava com confusões futebolísticas, tentava abastecer seu carro para visitar doentes na paróquia vizinha.
- Deu R$ 88, Seu Padre.
- O quê? Mas isso é um absurdo. Semana passada eu enchi meu tanque com R$ 79. Como pode?
- Padre, a gasolina aumentou.
- De onde vocês tiraram uma coisa dessas?
- A culpa não é nossa. São ordens que vêm de cima.
- De cima de onde? As únicas ordens que vêm de cima são ordens divinas. Saiba que é proibido por lei aumentar o preço da gasolina sem avisar.
- Mas houve aviso, Padre. Me desculpe se o senhor não ficou sabendo.

Padre Antônio resmungou, praguejou, mas abasteceu. Sem deixar de prometer que ia descontar tudo no dízimo. Na saída do posto, quase atropelou Dona Emília, Dona Carmela e Dona Leila que corriam esbaforidas pela rua. Conhecendo a carolice do trio, o Padre achou por bem verificar se o problema não era com a igreja.
- Onde as senhoras estão indo, nessa pressa toda?
- Ah, Padre, vamos buscar nossas crianças. Acabamos de descobrir que hoje é dia de vacinação e ninguém ficou sabendo, o senhor acredita? – se adiantou, Dona Carmela.
- Ah, minha filha, acredito sim...
-Sorte que a cidade é pequena. Todo mundo conhece todo mundo. Aí a Silvana, que trabalha lá no posto, mandou nos avisar. – explicou Dona Emília.
- Então tudo bem. Vão buscar suas crianças que eu vou visitar meus doentes.
- Vamos sim. Mas antes vamos passar na casa da Ângela. Se a gente não tava sabendo, imagine ela. Marido preso, a coitada toma conta de tudo sozinha. – era, Dona Leila, sempre preocupada e bem informada sobre a vida alheia.

E lá foram as três beatas. Passaram pelo bar, perceberam um certo tumulto e, apesar dos apelos de Dona Leila para ver o que estava acontecendo, acharam melhor seguir direto até a casa de Dona Ângela. Afinal, a vacina era só até o meio-dia. Bateram na porta uma, duas, três vezes. Quando já estavam prestes desistir, Dona Ângela saiu na janela.
- Nossa, Ângela, que cara é essa? Viu um fantasma?
- Quase isso, Emília. O Heitor tá na cidade. – sussurrou ela.
- O quê? Me explica isso direito. Ele foi transferido pra delegacia daqui?
- Não! Antes fosse. Mas foi pior, Leila, ele fugiu.
- Jesus toma conta!
- Parece que teve uma rebelião e vários presos fugiram.
- E ninguém ficou sabendo?
- Pois é, eu não sei o que aconteceu.

O que aconteceu, Dona Ângela, toda a cidadezinha e todo o país só souberam dias depois. Aconteceu que os jornalistas entraram em greve. E não tinha ninguém para noticiar.