sexta-feira, 6 de abril de 2007

7 de abril - Dia do Jornalista

Eu quis ser jornalista por gostar de escrever e apenas por isso. Nenhum caráter ideológico na minha escolha. Diferentemente do meu amigo Joaquim. Ok, eu não tenho nenhum amigo chamado Joaquim, mas vamos chamá-lo assim para preservar sua imagem de jornalista sério que ele é – ou ao menos tenta ser – hoje. Joaquim veio do interior de Minas para estudar jornalismo em Belo Horizonte. O motivo? Bom, porque jornalistas ajudam pessoas. Ao menos essa era a visão que ele tinha dos jornalistas em sua longínqua terra natal. Já em BH, e já resignado com a realidade que não é assim tão lúdica, Joaquim sempre se lembrava, naquelas rodas de jornalistas, que, em remota infância, quando via uma matéria sobre alguma desgraça qualquer, ele acreditava piamente que após o solene “Boa Noite” o jornalista, encarregado de contar o infortúnio, ajudava as vítimas da tragédia em questão.
A parte os exageros da mente imaginativa do meu amigo, muito daquela ilusão que ele criava parece refletir algo do imaginário popular com relação à figura dos jornalistas. Os repórteres de redação que o diga. Quem, estando nessa condição, nunca ouviu uma tia sugerir em tom imperativo: “Coloca lá no ‘seu jornal’ que a minha rua tá cheia de buraco”? Ou ainda: “Faz um reportagem sobre o barulho que meus vizinhos fazem à noite”. Às favas critérios de noticiabilidade. Dane-se se você cobre gastronomia. Você trabalha no jornal e, de certo, deve conhecer todo mundo que aparece ali. Do Presidente do Brasil ao técnico da seleção brasileira. Do líder terrorista ao líder da quadrilha que assalta bancos. E se você é assim, tão íntimo de todo mundo, é muito mais fácil para você denunciar, resolver problemas, colocar o dedo na ferida, conclamar a população para uma revolução e, enfim, fazer a tão almejada justiça.
Pois se você não faz nada disso, meu amigo, aí a coisa muda de figura. E o velho chavão de que “é culpa do governo” muda – numa troca de canal, ou num passar de páginas – para: “é culpa da mídia”. Ninguém vai viajar no próximo feriado devido a atraso e cancelamento de vôos? A Infraero, a Anac, o Ministério da Defesa, os controladores de vôo, ninguém tem nada a ver com isso. A culpa é da mídia, que fica apavorando a população. O preço da gasolina vai aumentar? Maldita hora que eu fui ler esse jornal funesto e estragar meu fim de semana. Reuniões de pauta? Foi-se o tempo. O que repórteres e editores fazem é conluio para bolar qual será o próximo pânico a ser lançado.
E assim, a imagem do pobre – em todos os sentidos – jornalista vai sendo arquitetada deliberadamente. Não importa se para o bem ou para o mal. O importante é impregnar-lhe uma aura de ser que tem o poder de resolver tudo mas que, quase sempre, opta por estragar tudo. Só não se leva em conta o fato de ele – o jornalista, pessoa física – ser um cidadão, a mercê de um punhado de instituições, como qualquer outro.
Em suma, ser jornalista é se equilibrar na linha tênue entre o heroísmo e a vilania.


P.S.: É só amanhã. Mas, como representante da classe que sou, passarei a data (sábado) (de páscoa) no exercício da profissão.