quinta-feira, 24 de maio de 2007

A casa

O que mais me conforta é saber que, aconteça o que acontecer, eu tenho minha casa para voltar. A minha casa não é a maior, nem a mais bonita. Não tem lareira, nem banheira. Mas tem o travesseiro onde eu deito a cabeça cheia de problema, cheia de trabalho, cheia de dúvidas, cheia de sonhos. É para onde eu volto todos os dias. Depois do trabalho, depois da festa, depois do beijo, depois da dança, depois do fora, depois do dentro, depois da batalha, depois da vitória, depois da queda, depois do coice. E as portas estão sempre abertas. Mesmo se o que eu tenha feito lá fora não tenha a aprovação de quem está aqui dentro. Mesmo se eu tiver esquecido as chaves. Eu volto e tem comida cheirosa. Eu volto e tem cama boa. Eu volto e tem água quente. Eu volto e tem água fresca. Eu volto e tem o pai que ainda sai para trabalhar todos os dias porque acha que merecemos viver melhor. Eu volto e tem a mãe que tem a solução para todos os problemas na ponta da língua. Eu volto e tem a irmã que fala pelos cotovelos e me mata de rir. Eu volto porque é aqui que está tudo o que eu considero como verdade, como amor, como seguro, como eterno - e isso, quem me disse foi o terapeuta. Aqui está quem se importa com o que eu sinto. Quem vai dar colo, quem vai evitar que a lágrima caia, quem vai ter o analgésico sempre à mão, quem vai rir junto. Não tem preço virar a esquina da Carmelita Índia do Brasil e avistar a luz da cozinha acesa. Não tem preço a certeza de que não interessa quantos machucados o mundo me faça. Eu tenho onde me curar.