quarta-feira, 16 de maio de 2007

Da série: textos p/ encher lingüiça

Ok, eu sei. Agora eu perdi a noção. Treze mil setecentos e setenta e dois caracteres é um pouco demais para um texto em Internet (e vai contra tudo aquilo que eu aprendi nas aulas de Jornalismo On-Line). Mas eu precisava dar um destino para este continho que eu escrevi há tempos. Quem tiver interesse e paciência pode ler em partes. Ele vai ficar aí para sempre mesmo...rs


Bracelete Prateado

Parte 1


Maldito despertador! Maldito sonho com o ex! Maldita manhã chuvosa! Malditas contas pra pagar! Maldita maneira para começar o dia! Enquanto praguejava contra os dissabores da vida, eu repetia meu ritual matinal frente ao espelho, tentando decidir entre a sandália ou o tênis, as pulseiras coloridas ou o bracelete prateado, a calça jeans ou a saia plissada. Demorou mais que nas outras manhãs. Eu parecia prever que não estava começando mais um dia, estava começando O dia. Calça jeans, tênis, camiseta branca e o bracelete prateado, para não ficar assim tão básico. E não se fala mais nisso. Até porque, minha mãe já me berrava para ir tomar o café. Vitamina de abacate ou laranjada? Me conhecendo há 24 anos ela deveria saber que para librianas não se dá duas possibilidades. É atraso de vida na certa. Principalmente librianas que carregam a alcunha de Duda. Levo a dúvida como sina.
Acabei não tomando nada. Antes de ir para o jornal precisava passar no banco, e já estava atrasada. No caminho, não consegui parar de pensar sobre o sonho que tive e tentei imaginar quando, finalmente, me veria livre dos sentimentos que ainda nutria pelo ex. As pessoas me diziam que aquilo passaria com o tempo. Mas eu não via nada passar, nem sequer o próprio tempo. Minha vida estava estagnada, exatamente como ele deixou. Parecia uma casa trancada, que se mantém em ordem, esperando que o dono volte de viagem. O problema é que a casa estava se enchendo de teias de aranha. Era a amargura.
Já na entrada do banco, novas ponderações. Se eu depositar em caixa rápido não enfrento fila, no entanto, o cheque demorará para compensar. Já se eu enfrentar a fila, terei o dinheiro na minha conta hoje mesmo. Então é melhor parar logo de pensar e entrar nessa fila.PiiiiiiiiiiPiiiiiiiiiiiiiiiPiiiiiiiiiiiiiii
Odeio detectores de metal. Deixei uma pessoa passar na minha frente enquanto esvaziava minha bolsa. Celular, chaves, moedas, pinça, alicate, cortador de unha. Pra quê tudo isso? Para ser pega no detector de metal, claro. Segunda tentativa.
PiiiiiiiiiiPiiiiiiiiiiiiiiiPiiiiiiiiiiiiiii
Dessa vez, o barulhinho irritante veio acompanhado pela voz grave do segurança parrudo. “Os metais, senhora”. Digo ou não digo que odeio ser chamada de senhora? Não digo, estou com pressa. Disse outra coisa. “Eu tirei tudo o que tem na minha bolsa e posso te garantir que não tenho pinos em nenhuma das minhas articulações”. “Talvez seja o bracelete”. Tive de concordar e, enquanto tirava o bracelete deixei outra pessoa passar na minha frente. Esse maldito. Eu devia ter vindo com as pulseiras coloridas. Contei. Havia treze pessoas na minha frente. Não fosse o incidente do bracelete seriam apenas doze. Tudo bem. Treze para doze não faz tanta diferença assim. A menos que a 13ª pessoa resolva fazer transferências, pagar contas, descontar cheques, pedir empréstimos... Foi o que aconteceu. Por culpa dessa porcaria desse bracelete, perdi quinze minutos.
O tempo suficiente para que um ônibus atropelasse um motoqueiro (com moto e tudo) na principal via de acesso pela qual eu deveria seguir. Engarrafamento. Era só o que me faltava. Eu que deveria estar no jornal há 20 minutos estou aqui, completamente ilhada. Cadê me celular? “Chefinha, querida, vou atrasar um pouco...”. “Você já está atrasada, Duda”. “Eu sei é que eu coloquei um bracelete prateado hoje e, por causa dele, fiquei barrada na entrada do banco e aí...”. “Duda, por favor, me poupe dessa falação. Chegue aqui em meia hora, senão vai se atrasar para a entrevista com o governador”.
Eu sabia que em meia hora eu poderia sair do lugar onde eu estava e ir até o jornal oito vezes. Mas não com aquele trânsito. O jeito é rezar, mas pra qual santo? São Cristóvão protetor dos motoristas? São Pedro pra parar de chover? São Longuinho pra encontrar a solução para meus problemas? Tá aí uma das vantagens de se ter dúvida. O tempo passa rápido enquanto você avalia possibilidades.
“Cheguei, chefinha!”. “Tarde demais, dear. A Ana foi entrevistar o governador no seu lugar”. “Pôxa, ia ser minha primeira matéria de capa”. “Fica pra uma outra, Duda. Agora você vai cobrir a inauguração de um chafariz num jardim de infância”.
Aquele Senhor com sua onipresença, onipotência e enormes barbas brancas só podia estar de gozação com a minha cara. O que é que eu te fiz Deus? No dia em que eu ia conseguir emplacar uma matéria na capa do jornal e fazer, pelo menos, minha vida profissional deslanchar, o Senhor me apronta uma dessas? Por que? Por que? Deus não me respondeu, assim, de imediato. Tampouco as crianças que seriam minhas fontes oficiais naquela matéria. “Ei, você está gostando de ter um chafariz aqui na sua escola?”. “Sim”. “Por que?”. “Porque sim”. “Você acompanhou a construção do chafariz?”. “Não”.
Aquela vã tentativa de extorquir informações daqueles pirralhos me deixava ainda mais irritada. Irritada, não. Puta da vida mesmo. Mas eu sabia que a culpa não era deles. A culpa foi desse bracelete que me deixou presa na porta do banco, me obrigando a deixar uma pessoa a passar na minha frente. Uma pessoa que pretendia fazer todos os serviços bancários e me atrasou em quinze minutos. Pouco tempo, mas o bastante para um ônibus e uma moto se chocarem congestionando todo o trânsito e, por conseqüência atrapalhando minha chegada ao jornal. Justo hoje que eu tinha a matéria de capa, que acabei perdendo para a Ana. E agora estou aqui, fingindo estar contente porque golfinhos de pedra cospem água no pátio de um jardim de infância.
E se tem alguém que nunca falha nesse mundo, esse alguém atende pela graça de Murphy. Quando finalmente me preparava para sair daquele lugar – já inventando o texto que iria escrever, porque de informações mesmo não tinha nada – fui atingida na testa por um disco. Não sei exatamente o que era. Sei que não era disco voador. Possivelmente parte de um brinquedo defenestrado por algum anjinho. Foi tudo muito rápido. Colisão. Tontura. Sangue escorrendo. Hospital. Quando dei por mim, estava sentada numa enfermaria, sendo amparada por uma enfermeira daquelas típicas: robusta, com a pele rosada. Ela me informou que eu teria de levar alguns pontos no local atingido. Aceitei a sentença resignada. Já estava calejada com tanto infortúnio num só dia. Enquanto ela preparava o material cirúrgico observei na parede do corredor um quadro intrigante. Trazia uma foto de uma borboleta e, abaixo dela, a seguinte inscrição: “Algo tão pequeno quanto o vôo de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo - Teoria do Caos”.
“Prontinho. Eu não disse que não ia doer nada? Agora espere aí que o doutor Rodrigo irá medicá-la e você pode ir para casa, certo?”. Certo, certo. Que ironia. O certo seria eu ter colocado minhas pulseiras coloridas, chegado no jornal sem atraso e ido entrevistar o governador. Mas não, agora eu estava ali com a cabeça enfaixada diante de uma borboleta enigmática e de – oh meu Deus – um médico maravilhoso. “Maria Eduarda, é você?”. “Claro”. Nunca respondi a uma pergunta com tanta convicção. “A enfermeira me disse que você está um pouco nervosa, o que houve?”. “É que hoje de manhã, eu fiz uma péssima escolha. Coloquei essa droga desse bracelete em vez de usar umas pulseiras, que eu adoro. Por causa dele, fiquei presa na porra da porta de um banco, o que me obrigou a deixar uma pessoa idiota a passar na minha frente. Uma pessoa tão idiota que pretendia fazer todos os serviços bancários e me atrasou em inacreditáveis quinze minutos. Pouco tempo, mas o bastante para que a bosta de um ônibus e uma merda de uma moto se chocassem fodendo todo o trânsito e, por conseqüência atrapalhando minha chegada ao lixo daquele jornal. Justo hoje que eu tinha a matéria de capa, que acabei perdendo para a songa-monga da Ana. E sabe aonde eu fui parar? Na inauguração de patéticos golfinhos cuspidores de água num jardim de infância, que mais parecia a ala infantil do inferno. E quando eu achava que nada mais poderia dar errado, um daqueles pequenos delinqüentes me atingiu a testa com um objeto. E voador! E não identificado! E agora estou aqui, com a cabeça toda estropiada...”. “Nervosinha, com a cabeça estropiada, mas absolutamente linda. Deve ser por causa do bracelete”, interrompeu Rodrigo, definitivamente.


Parte II

“Alô, quem fala?”. “É o André!”. “Boa tarde, André, é um prazer falar com você, querido”. “Pôxa, o prazer é meu, adoro seu programa. Eu sempre tento participar, mas é tão difícil falar aí”.“Ah, mas algo me diz que você vai se dar bem, hein? Já conhece as regras do ‘Chutou Levou’, André?”. “Claro”. “Então me responda, lembrando que você só tem uma chance: quantos grãos de lentilhas têm dentro desta panela de pressão?”. “17.624”. “Inacreditável! André, você acaba de faturar R$ 5 mil reais”.
Eu saía do banho quando assisti, boquiaberta, àquela cena. Meu irmão André odeia televisão e nunca havia visto o tal do “Chutou Levou”. E, de repente, conseguiu se passar por fã do programa, e da apresentadora, e ainda embolsar R$ 5 mil. Quis saber exatamente o que estava acontecendo para me certificar de que não estava sonhando. “O que foi isso André? Agora você assiste TV e faz adivinhações?”. “Não, Carol, eu tive a maior sorte da minha vida”. “Fala logo”. “Eu liguei a TV e já estava nessa emissora. Nisso tocou o telefone. Era a vovó. Enquanto eu falava com ela, ou pelo menos tentava entender o que ela queria dizer com aquelas frases malucas – do tipo: ‘a antena do balde quebrou’ – vi um cara ligar para esse programa. Ele disse que havia 17.623 grãos de lentilha na panela. A tal da apresentadora falou que tinha mais. Logo em seguida liga outro chutando 17.625. E o que ela disse? Não precisar responder. Disse que tinha menos. Fiquei louco. Desliguei na cara da vovó e liguei pra lá. E agora, Carol, eu tenho R$ 5 mil reais sem fazer o menor esforço”. “Que mundo injusto. Mas como você já tem? O dinheiro caiu automaticamente no seu bolso?”.
Se ele dissesse que sim eu até acreditaria. Depois de vê-lo participando de um programa de TV acreditaria em qualquer coisa. Mas a resposta dele não foi assim tão inusitada. Ele teria de retirar o dinheiro na emissora ainda naquela tarde e é claro que a missão sobrou para a irmãzinha querida. “Por favor, Carol, vamos lá comigo. Eu te dou aquele CD Robbie Williams”. “Deixa de ser cara de pau. Você ganhou R$ 5 mil e vai me dar um CD que não custa nem R$ 50”. “Ah, ta bom vai. Um CD e um DVD”. “Não adianta tentar me subornar. Eu tenho um compromisso. Preciso comprar umas coisas. E tem que ser hoje, impreterivelmente”. “Impetre...adoro quando você fala essas palavras que eu não consigo falar. Mas, olha, mana, eu não posso perder essa grana. A gente vai até a emissora, pega o dinheiro e depois vamos ao shopping. Aí você faz as suas compras e eu ainda te compro o CD e o DVD que eu te prometi”.
Fomos. Na verdade eu sabia que eu iria desde o princípio, embora tivesse mesmo que fazer as tais compras. André me manipula desde criança. Coisa de irmão mais novo mimado. Eu nunca soube dizer não a ele. Nem meus pais. Talvez por isso tenha se tornando essa pessoa que, aos 22 anos ainda não sabe o que quer fazer da vida e passa o dia navegando na Internet. Ao menos não fica assistindo TV. Ele nunca assiste TV. “É verdade, você nunca vê TV André, nunca! Então porque você ligou a TV hoje? Não vai me dizer que faz isso escondido!”. “Não, a mamãe pediu pra eu gravar pra ela uma entrevista que ia passar na TV educativa”. “Ah ta...”. “Putz, e eu não gravei! Me esqueci”. “Ai meu Deus. Ela vai te dar uma bronca”. “Ah, mas eu vou me mostrar tão feliz por ter ganhado esse dinheiro que ela nem vai ter coragem de brigar comigo”. “Pior é que eu sei que não mesmo, queridinho”.
Chegamos à emissora e, é claro, sendo uma empresa brasileira, não seria nada no esquema pá-pum. Passamos por uma portaria, de onde fomos encaminhados a uma recepção. André teve de preencher uma ficha que praticamente o obrigava a narrar sua vida desde o nascimento até o momento “lentilhas na panela de pressão”. Depois ficamos sentados diante de uma recepcionista que lixava as unhas – Por que elas sempre lixam as unhas em horário de trabalho? – enquanto alguém da produção do programa se encarregava de trazer a verba. Uma esperava sem fim. Não consegui conter minha impaciência. “Que droga, não vou conseguir sair daqui antes que o shopping feche e a culpa é sua e desse seu súbito interesse por esses programas vespertinos”. “A culpa não é minha, Carol. A culpa é da mamãe. Eu não teria ligado aquela TV nem hoje nem nunca se ela não tivesse mandado eu gravar uma entrevista”. “Não fala assim da mamãe. A culpa não é dela”. “Ta bom, a culpa é do entrevistado que ela tanto queria ver. Justo hoje esse cara tinha que aparecer na TV. Ta bom assim?”. “Melhorou”.
Quando saímos da emissora já eram quase 21h30. Voamos para o shopping mais próximo. No caminho, André recebeu uma mensagem no celular. Era mamãe que indagava: “Babe, onde está gravada a entrevista com o doutor Rodrigo?”. Ele preferiu não responder. “Em casa eu explico pra ela. Que droga. Mamãe é fã de um médico. Era só o que faltava”. “Ciumento!”.
Já no shopping, fui direto à loja de acessórios. “Moça, sabe aquela bolsinha de couro da Betty Boops que estava na vitrine ontem? Eu vou levar uma”. “Pôxa, que pena, acabamos de vender a última peça. Se você tivesse chegado meia hora antes”. “Merda! Ta vendo, André? Culpa sua!”. “Minha não! Da mamãe!”. “Da mamãe, não!”. “Ta bom, do tal doutor Rodrigo”. “Saco, viu”. “Mas pra quem era essa bolsa?”. “Prá Duda, hoje é aniversário dela”. “Ah, leva outra coisa. Olha aquelas pulseirinhas coloridas. Acho que mulheres gostam”. “Ela já tem pulseiras exatamente assim”. “Vocês mulheres complicam tudo”. “Hummm...mas aquilo ela não tem. Moça, me vê aquele bracelete prateado”.