sexta-feira, 15 de junho de 2007

Aquele do beijo

Eu estava lendo a orelha de algum livro, não lembro qual era, quando o menino passou por mim, esbaforido, e sentou-se numa das poltroninhas que tem na livraria, perto dos livros infantis. Devia ter 13 ou 14 anos e usava um uniforme escolar. Sentou-se, jogou a mochila no chão e gritou: "Eu tô aqui, gorda". Segundos depois, chegou a "gorda". Usava o mesmo uniforme e acho que tinha a mesma idade. Assim que o viu, retribuiu às palavras afetuosas: "Por que você não me esperou, seu ridículo?". Eu ri. Não sei se eles perceberam. Ri ao me lembrar da época em que eu usava xingamentos para demonstrar carinho. E quis rir mais ainda quando me dei conta de que ainda existe em mim muitos resquícios dessa fase. Fui retirada dos meus devaneios com a menina trombando em mim, já se desculpando. "Foi mal, moça, esse idiota me empurrou". "Ele é idiota mas você gosta dele", pensei. Mas não disse. Voltei aos livros e fiquei escutando os risinhos dos dois até que, de repente, silêncio seguido de estalinhos. Não olhei, naturalmente. Me afastei enquanto o ouvia dizer: "faz tempo que eu queria".

Saí da livraria sem comprar nenhum livro, mas levando uma sensação boa de que o melhor da vida está mesmo nesses momentinhos de primeiro beijo em tardes de quinta-feira.