terça-feira, 17 de julho de 2007

Aquele do Carrossel

Um fato que marcou a minha infância foi a exibição da novela Carrossel - o que deve ter acontecido com todas as pessoas da minha geração. O que, no entanto, fez com que ela fosse marcante para mim, não foi pura e simplesmente sua exibição, mas o fato de eu já me mostrar uma pessoa que gostava de complicar as coisas.

Ao final de cada capítulo, quando a maioria das outras crianças iam dormir, assistir outro programa, jantar, brincar, bater no irmãozinho, fazer xixi ou qualquer coisa que fosse, eu chorava. Chorava porque o Mário Ayala não tinha mãe.

Na mesma época, ouvi, pela primeira vez na vida, aquela história de que "seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem". Intrigada e ignorando o que vinha a ser "se reproduzir", me dediquei com afinco a pesquisar sobre isso. A descoberta era alarmante: meus pais não apenas já haviam se reproduzido como eu era o fruto disso. Em vez de ficar feliz com minha descoberta, pensei: "Danou-se. Agora eles vão morrer". Associei isso à orfandade do Mário Ayala e minha vida virou um inferno.

Não suportando mais me ver naquele drama, minha mãe tomou uma medida drástica: me proibiu de assistir Carrossel. Foi péssimo. Principalmente porque, na escola, todos os dias, o capítulo anterior era tema das conversinhas das meninas e eu, bom, eu não tinha mais o que comentar.

Que eu me lembre, foi a primeira vez que eu perdi alguma coisa por conta de um medo ridículo que me congelava. Mais ridículo ainda é o fato de hoje, aos 23 anos, com quase 1.80m de altura, profissão, carteira de trabalho, título de eleitor, carteira de motorista, eu continuar me comportando como a menina da 1ª série dos não-alfabetizados.

A diferença é que agora, pela primeira vez, eu tenho consciência disso e quero mudar. Chega de inventar problemas, de criar monstros e fantasiar situações onde eu, invarialvelmente, sou a vítima. Porque o SBT repetiu Carrossel mais umas trocentas vezes. Mas tem coisas na vida que não voltam.