quinta-feira, 26 de julho de 2007

Aquele que ainda virá

A primeira coisa que fiz, hoje, ao acordar, foi ligar para mamãe a fim de repassar, mais uma vez, a receita da lasanha de berinjela. Ela não estava. Tentei no celular, mas ela não atendeu. Depois me lembrei que mamãe e o papai sairiam para ajudar o P.O a comprar novos móveis para o sítio. Mamãe insiste em sair sem celular, papai insiste em ajudar o P.O e eu insisto em ser uma nulidade culinária. Tem coisas que nunca mudam.

Liguei para a Paula. Joãozinho atendeu e me disse empolgado. “Tia Ferdi, eu estou amando a nova escola”. Não foram só os olhos verdes que ele puxou da mãe. Paula tomou-lhe o telefone e, finalmente, me explicou toda receita, nos mínimos detalhes.

Eu não deveria ter inventado de fazer essa lasanha justo hoje que a Glória está de folga. Mas era aniversário de casamento. É o prato preferido dele. Não me custava nada dispensar um certo esforço.

Saí para comprar os ingredientes. Até hoje não sei bem a diferença entre molho de tomate, extrato de tomate e massa de tomate. Enquanto decidia entre um ou outro, fui interrompida com o aviso de recebimento de mensagem no meu celular. Era Nina, pedindo que eu a pegasse mais cedo no colégio. Achei estranho, ela não é disso. Deixei as compras para depois e fui.

“Espero que não seja nada sério”, pensei enquanto procurava com os olhos meu carro pelo estacionamento. “Droga, eu nunca vou consegui fazer essa baliza”. Um carro colado na minha frente, outro atrás. “E agora?”. Olhei para os lados, como quem procura um milagre. E ele apareceu. Juliano, dono da primeira agência onde trabalhei. “Chefeee”, gritei efusiva, como eu fazia nos tempos de assessoria. Ele respondeu mais efusivo ainda e, enquanto, tirava meu carro da vaga, falou sobre seu novo livro e me perguntou sobre o meu.

Segui para o colégio, rindo do fato irônico. “E pensar que ele tirou carteira de motorista bem depois de mim”.

Entrei na secretaria e me dirigi, ansiosa, para a primeira pessoa que apareceu na minha frente. “Eu vim buscar a Nina, da 6ª série”. Minutos depois, a vi se aproximar, vagarosamente, e me encarar com aquele olhão – com sua carinha clássica de quando quer me contar alguma coisa. “O quê aconteceu, Nina?”. “Fiquei menstruada, mãe”. “Que linda, meu bebê agora é uma mocinha”. “Fala baixo, mãe. O mundo inteiro precisa ficar sabendo?”. “Ah, eu estou tão emocionada”. “Vamos pra casa logo?”. “Acho que vou levar o Davi de uma vez”. “De jeito nenhum. Aquele ridículo não pode saber o que está acontecendo”. “Não fala assim do seu irmão”. “Manhê, que saco. Quero ir pra casa. Tô nervosa”. “Tudo bem, hoje eu te dou um desconto. Depois eu volto pra buscá-lo”.

No caminho para a casa, fiz Nina rir ao lhe contar sobre a minha falta de sorte, de ter ficado menstruada, pela primeira vez, na praia. Mas, com a ansiedade típica dos adolescentes, ela, do nada, mudou de assunto. “Vamos passar na casa da Lili para buscar o Francisco, mãe”. “Quem é Francisco, Nina?”. “Meu novo filho”. “Outro cachorro?”. “Sim, eu pedi para a Lili e ela vai me dar”. “A Lili já te deu três cachorros”. “Mãe, eu gosto dos cachorros, o papai gosta dos cachorros, o Davi gosta dos cachorros. Só você não gosta dos cachorros”. “Tudo bem, Nina. Mas agora não. Eu tenho que te deixar em casa, ir ao supermercado, fazer almoço, buscar o Davi, editar dois artigos, preparar essa lasanha, fazer minha unha. Meu Deus, eu vou enlouquecer!”. “Você falou igual à vovó agora”.

E falei mesmo. Incrível como que, com o passar do tempo, todas as neuras da minha mãe começaram a fazer total sentido. A começar pela superproteção com os meninos. Mas resolvi dar ouvidos à Nina e relaxar um pouco. A deixei na porta de casa com algumas recomendações: “Liga para o seu pai e fala que não vai ter almoço em casa hoje. Vou comprar um lanche para nós. Liga para o Davi e fala para ele voltar de carona com alguém e liga para a Lili e fala que buscaremos o cachorro amanhã”. “Ligo, ligo e ligo”. “Quer dizer, deixa que para a Lili eu ligo. Quero conversar com ela sobre uns CD’s...”. “CD’s, mãe? Me poupe. Quando você vai se desfazer dessas antiguidades?”. “Ai, ai. Tchau, mocinha! E parabéns pela novidade!”. “E o quê tem de bom nisso?”.

Tão bronca essa garota. Não sei a quem puxou. Quer dizer, eu sei. Mas achei melhor não revelar. Voltei ao supermercado, comprei o que eu precisava. Na volta, peguei a manicure e a trouxe para minha casa. Enquanto ela me fazia as unhas dos pés eu editava os benditos artigos. Antes que eu concluísse uma coisa ou outra, Davi chegou. “Oi, mãe”. “O quê é que você tem?”. “Nada”. “E eu não conheço a entonação da sua voz desde o primeiro choro?”. Acho que, sem querer, falei a palavra mágica. Davi sentou-se na poltrona à minha frente e chorou. Abandonei os artigos e pedi que a manicure nos deixasse. “Fala, meu filho? É algum problema na escola?”. “A Ana terminou comigo”. “Meu amor, não fica assim”. “Como não ficar assim, mãe? Eu amo a Ana. Eu fiz tudo para ela nesses oito meses”. “Eu sei que é difícil. Mas, filho, você só tem 15 anos. Isso acontece com todo mundo”. “Mãe, eu quero sair do colégio. Não posso continuar convivendo com a Ana. Eu lido mal com lembranças”.

Parecia eu falando. Davi e Nina puxaram meus piores defeitos. Péssimo isso. Mas ao menos eu tenho o antídoto para ajudá-los de alguma forma. Contei ao Davi das tantas vezes que eu me senti exatamente como ele estava se sentindo naquele momento e que, nada daquilo, havia me impedido de, hoje, ter meus sonhos realizados.

Saiu da sala um pouco melhor que entrou. Chamou Nina e foram para a casa dos meus pais. “Precisamos desabafar com a vovó”, me disseram. Mas sei que era mesmo uma gentileza dos dois para deixarem pai e mãe sozinhos.

Só às seis da tarde consegui começar a fazer a tal da lasanha. E graças à ajuda da Paula, que ia atender um paciente ali por perto e passou para me dar uma forcinha.

Ele chegou. Lindo. Como em todos os outros dias. Como no primeiro dia que eu o vi. Disse que amou a lasanha. Me abraçou forte e completou: “Mas pode confessar, você não fez sozinha”. E eu ri e o amei mais um pouquinho. Porque amo cada vez mais. Mesmo quando critica minhas habilidades culinárias ou diz que sou uma falsa magra.

Agora, antes de ir me deitar, decidi checar meus e-mails. Entre tantos, um da minha prima Lúcia, como uma foto nossa, em anexo. “Olha essa foto, Nanda! Me explica nossos cabelos??? Quanto tempo faz isso? Vinte anos? O quê será que passava nas nossas cabeças nessa época?”.

Na sua eu não sei, Lucinha. Mas, na minha, certamente, o desejo de ser o que eu sou hoje.

Fernanda, primeira semana de agosto, de 2027.