quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Aquele da rachadura

Deitada em sua cama, olhou, pela milionésima vez, para a minúscula rachadura no teto de seu quarto. Mas, pela primeira vez, lhe ocorreu uma nova idéia. Não sobre a minúscula rachadura no teto, aquilo não lhe importava nem um pouco. Mas sobre a - não tão minúscula - nova rachadura que acabara, ela mesma, de adquirir. Não, não era uma questão de se sentir mal por baixa auto-estima. Se fosse para se sentir mal, que escolhesse outros motivos - e estes, certamente não lhe faltariam. Definitivamente, não era esse o problema. Ele a achava bonita, sim, já havia dito isso antes e, se não achasse, não ia querer "pegá-la". Inteligente também. Vivia elogiando a maneira como ela escrevia e como tinha respostas na ponta da língua para tudo. E, bom, ela mesma nunca deixou de acreditar em sua inteligência. Da beleza, sim, ela duvidava, mas da inteligência não. Então a questão era essa: ela não era feia, nem burra. Ele apenas não se apaixonou por ela e, disso, ninguém tem culpa. Ela mesma poderia listar dezenas de homens que ela acha bonitos e inteligentes, mas por quem ela jamais se apaixonaria. Era só isso. Ele não se apaixonou. Isso não tem nada a ver com os defeitos ou qualidades dela. Apenas com uma série de outras conjunturas que agora ela não conseguia compreender. Acontece que ele já era experiente demais para se apaixonar pela "pessoa errada" ou pela pessoa "com quem não tem que ser". Ela não. Sai se apaixonando a torto e a direito. Não aprendeu essas coisas ainda. Por isso fica triste. Pelo menos agora não é mais por problema de auto-estima. Pensou, pensou, pensou e concluiu que é mesmo uma pessoa bacana. Sem qualidades extravagantes, é verdade. Mas boa o bastante para um dia encontrar um homem que a telefone para ouvir sua voz, e não uma piadinha.