terça-feira, 4 de março de 2008

Bonzinho só se fode

E não me digam o contrário. Aquelas um milhão quinhentos e oito mil e oitocentos e setenta e sete pessoas que, até a última atualização, faziam parte dessa comunidade do Orkut não podem estar erradas. E ainda que não tivesse esse milhão de bonzinhos constatando e ratificando a máxima, cá estariam os comprobatórios fatos da minha medíocre vidinha. Tenho pensando sobre isso esses dias. Aí você vai me perguntar: não tem coisa melhor para ficar pensando não? Pois é, não tenho. Decidi, então, levar meus questionamentos para o divã - porque, como vocês sabem, eu pago alguém para me dizer aquilo que meus amigos me dizem. Mas, por estar pagando me sinto na obrigação de levar o conselho a sério. E, devo dizer, dessa vez, fiquei tão feliz com que ouvi que até paguei umas consultas adiantadas. É tão simples, mas eu nunca havia atinado: é quase impossível ser, ao mesmo tempo, bonzinho para a humanidade inteira e para si próprio. Se você odeia comida japonesa, pode até mentir que gosta para agradar o outro (que, ai que ironia, ama!). Mas aí você passará a primeira metade da noite mastigando uma coisa crua, sem gosto que você nem sabe o nome e a outra metade abraçada com uma privada. Ridículo, já que eu sei conversar, sou articulada, falo português e poderia muito bem ter dito: não gosto. Vamos comer pizza. Pois é, foi comigo esse episódio, que já está devidamente enterrado no passado. Aprendi a lição? Claro que não. Me peguei vendo Stars Wars sem nem saber que porra é essa de Jedi. Me peguei ensaiando uns passinhos de forró sendo que o que eu gosto mesmo é de dançar solta, sem ninguém encostando em mim. Me peguei louca de vontade de ouvir a voz mas me reprimindo para não parecer chata. Me peguei louca de curiosidade para saber quem era aquela piranha do Orkut, mas me controlando para não parecer ciumenta. Me peguei usando rasteirinha para não humilhar homem nenhum com meu 1.80m. Me peguei aprendendo a cantar rap - putz, isso aconteceu quando eu tinha 14 anos, o que me leva à triste constatação de que estou há, pelo menos, dez anos me submetendo às vontades alheias. Vou parar com essa lista, antes que eu entre em depressão. Resumindo: o quê eu ganhei com isso? Nenhuma jura de amor eterno, nenhum pedido de casamento, nenhuma serenata na porta da minha casa (é, pensando bem, isso eu não quero nunca). Não vou fazer nenhuma promessa de que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Porque, me conheço, fazer promessa é o primeiro passo para não cumprir. Só estarei mais atenta com aquilo que eu quero. E é bom ter essa consciência agora que estou sozinha. Antes que eu me pegue vivendo uma vida que não me pertence.