sábado, 19 de abril de 2008

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Conheci um senhor de uns 70 anos, no vôo, indo para São Paulo. Ele estava ao meu lado e eu fui logo forçando amizade. Explico: tenho pavor (do tipo pânico, fobia) de viajar de avião sem a companhia de algum conhecido. Então, quando é inevitável, como era o caso, eu trato de providenciar um conhecido instantâneo (eu sei, minha mãe sempre me diz o que, provavelmente, vocês estão pensando: se o avião explodir, por exemplo, que diferença faz estar sozinha ou acompanhada. Nenhuma. Agora tentem explicar isso para meu superego). Enfim, minhas neuras à parte, voltemos ao caso. Conversa vem, conversa vem (porque, sim, foi só eu puxar assunto e ele iniciou uma espécie de monólogo), o senhor me relatou sua trajetória profissional. Me disse que era desembargador do tribunal de justiça e dono de uma rede de colégios em São Paulo. Dinheiro é mato. Foi o que eu pensei. Em seguida, surgiu o assunto viagem. Ele enumerou quase todos os 60 (!!!!!) países que já conheceu e ainda me deu dicas sobre as melhores e piores companhias aéreas do mundo (para quem quer viajar: a melhor, segundo ele, é a JAL - Japan Air Lines, e a pior é uma italiana que eu esqueci o nome). Eu continuei calada. Ia falar o quê? Que passei todas as minhas férias em Guarapari? Me falou ainda sobre sua casa de veraneio em Orlando e sobre quando percorreu a América Latina em seu home road (imaginei o trailer do Get Along Gang, em versão de luxo). Sei que enquanto ele me contava suas afortunadas peripécias eu só conseguia pensar: "caralho, ter dinheiro é a melhor coisa do mundo! Imagine ter uma vida dessas?". Foi quando ele me tirou dos meus devaneios semi-invejosos com uma pergunta: "Mas sabia que ainda tem um país que eu gostaria de conhecer?". "Qual?", perguntei. "Austrália". "E por que o senhor ainda não conhece?". Seus olhos marejaram. Me explicou que, recentemente, chegou a planejar a viagem com a família mas, pouco tempo antes, descobriram que a filha dele - pouco mais velha que eu, ele fez questão de dizer - está com um câncer em estado avançado na cabeça. Engoliu seco e encerrou o assunto: "e não há nada que eu possa fazer por ela".




Pois é...