sábado, 31 de maio de 2008

O problema do problema

Eu estou muito triste, sabe. Hoje eu me peguei sofrendo com o problema do problema. O problema é ver o meu pai há quase dez dias internados por conta de um acidente de carro, sem previsão de alta. O problema do problema é como minha relação com as pessoas ficou tão à flor da pele nesses dias.

É tão difícil, por mais amigos e familiares que eu tenha, chegar e dizer como tudo tá uma merda e como eu tenho vontade de chorar. Porque logo as pessoas me lembram que - alôôô - isso não é privilégio meu. Todo mundo tem problema. Aí elas me dizem que vai ficar tudo bem. Não porque elas acreditam que vai ficar tudo bem, mas porque dizer que vai ficar tudo bem é um jeito de parecer legal e encerrar logo o assunto. Depois que alguém te diz que vai ficar tudo bem você vai dizer o quê? Que vai ficar tudo mal? E eu entendo. Eu também digo que vai ficar tudo bem quando eu não sei o que dizer. E eu, quase nunca, sei o que dizer.

Essa noite eu sonhei a noite inteira com o João. O João era uma pessoa que me ouvia, me dava bronca e tal. Mas eu não posso mais desabafar todos os meus problemas com o João. Porque eu tive que afastá-lo de mim. Porque eu não soube lidar com a presença dele na minha vida. E quando eu acordei eu me dei conta de como eu sinto falta dele. Mesmo para conversar e desabafar e chorar. Eu já tinha me esquecido que eu sentia tanta falta dele. O problema do problema.

E aí eu sinto falta de até quem não existe na minha vida. Eu sinto falta de alguém que queira cuidar de mim. E aí eu me lembro que eu sinto falta disso há anos. E aí eu me lembro que eu nunca tive isso. O problema do problema do problema.

Então eu choro e tento racionalizar. Meu pai está internado, minha família está triste, eu ganho menos do que eu gastava com a minha faculdade, eu estou sozinha, eu não quero avacalhar a vida dos meus amigos com meus problemas e exigir nada deles. Agora eu só quero ficar sozinha. E eu acredito que ficar sozinha por opção seja uma forma de sentir menos a falta das pessoas.

E, ainda assim, eu gosto de viver. Eu sou uma masoquista mesmo. Espero que um dia a vida me recompense por eu gostar tanto dela.