quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Infância marginal



Aos 3 anos tive meu primeiro porre. Aos 4, a primeira tentativa de assassinato. E aos, 5 o primeiro furto.

Acho que esse meu lado obscuro se desencadeou mesmo no dia em que completei 3 anos de idade. A festa foi linda, ganhei muita coisa (eu sempre tive sorte com presentes) e adultos e crianças se esbaldaram. Eu, principalmente. Enquanto mamis e papis se despediam dos últimos convidados, juntei todas as garrafas e copos nos quais ainda havia algum resquício de bebidas alcoólicas, organizei tudo enfileirado e depois bebi. Acho que só não entrei em coma alcoólico porque antes havia me empanturrrado de doces (digamos que eu era um pouco descontrolada e várias vezes em minha infância passei muito mal por comer demais). Resultado do porre infantil: hospital, médico acabando com mamis em xingamentos, ressaquinha, dor de cabeça, sede, comentários do tipo: "mãe, pára de rodar na minha frente", e uma infância quase perdida.

Foi no ano seguinte que tentei matar um dos meus primos. Os adultos jogavam baralho e eu, achando aquela tarde um tédio, resolvi "brincar" com ele, um menininho gordinho de apenas 2 anos. Levantei a lona que cobria a piscina (que encontrava-se cheia de água) e falei: "Olha que legal". E tchibum. Joguei o garoto lá dentro. Sorte dele (e minha mãe também - imagine como estaria minha cabecinha hoje se eu tivesse matado uma menino de 2 anos!) que um tio ouviu um barulho de coisa cainda na água e veio perguntar o que era. Eu até despistei falando que era a bola (incrível, eu não sei porquê, eu queria mesmo dar cabo do garoto) mas ele foi conferir e resgatou a vítima a tempo.



Nem tomei vergonha na cara com as broncas familiares. Pouco tempo depois, lá estava eu fazendo Gustavo, outro primo (meu primo gêmeo a quem, hoje, amo amo amo) inalar amônia. Mas ele só ficou tontinho. E fechando minha ficha na categoria tentativas de homicídio, estive prestes a desferir golpes com um guarda-chuva contra minha irmã recém-nascida. Legítima defesa: eu era o xodó da casa e, de repente, me vejo tendo que dividir TUDO com ela. Aquela criança linda, loira, de olhos azuis. "Tipo a Xuxa", diziam uns infelizes, para meu desgosto. E ainda me consolavam: "Mas você parece a Mara, Nanda". Eu odiava a Mara! Mas como tenho sorte, mais uma vez fui impedida de concluir o serviço. E não é que hoje minha irmã é TUDO na minha vida?



Também foi com 5 anos que tive o segundo porre (virei de uma vez um copo de jurubeba com cachaça que meu pai deixou na pia) (mas a culpa foi dele que me falou que era Coca) (e eu tomei tudo por achar legal uma Coca com gosto diferente), e também cometi o primeiro furto. É que eu amava massinhas. Então, minha mãe me comprou um monte. Só que as minhas eram coloridas e macias e eu gostava daquelas duras e cinzas que tinha no Jardim. Resolvi a questão: enchi minha merendeira delas.

Foi uma das únicas vezes em que mamis não passou a mão na minha cabeça. Me fez devolver as massinhas perante a sala toda. MICO! Aprendi? Sim! Nunca mais roubei massinha. Só chiclete, com 6 anos, em uma padaria de Guarapari. Sei lá, deu vontade, peguei. Só que o dono da padaria era mais esperto que eu, me pegou em flagrante e deu aquela humilhadinha básica. Cheguei na casa onde estávamos e contei para minha mãe. E lá foi ela, toda linda, até a padaria, com uma nota alta (tipo R$ 100) e pediu um chiclete. O cara - o mesmo que me humilhou - disse singelamente que não tinha troco, mas que ela podia levar o chiclete sem pagar. Perfeito plano! E aí ela falou: "Você humilhou a minha filha por causa dessa porcaria que não vale nada. Eu quero pagar por esse chiclete. Se vira e me traz o troco". Amo minha mãe.



Fora isso, fui uma criança legal. Eu ia à missa e sempre me sentava lá na frente, ao lado do padre, comendo aqueles coquinhos queimados que vende muito em porta de igreja. De tempos eu tempos eu falava (com a voz alta e grossa, que eu tinha): "Quer um, padre?", "Quer um, mãe?", "Quer um, dona Fulana". Mas o povo da igreja me adorava.

Sempre gostei de fazer escolhas estranhas (característica profudamente arraigada em minha personalidade para todo sempre, já aceitei). Exemplo: usava-se no Jardim onde eu estudava uns rolos de papel higiêncio cor-de-rosa e eu tinha MUITO NOJO daquilo. Pra mim, papel higiênico era branco e pronto. Então, eu sempre fazia meu cocôzinho na roupinha. Assim ia me limpar só em casa (vocês vão ficar com nojo de mim se eu disser que, ainda por cima, eu ficava sentando na merendeira para amassar o produto?).

E, como quase todas as chicas da minha geração, era fã da Xuxa. Fanática! E às vezes dizia à minha mãe que eu queria ser filha da Xuxa, e não dela. E, apesar de tudo, minha mãe me deu todo amor do mundo, tem me mimado every single day e tem o maior orgulho por eu ter me tornado essa adulta que não mata nem barata, bebe moderamente, e não gosto de pegar coisas alheias nem emprestadas.


___________________________________

Recebi a missão de falar um pouco sobre a minha infância da minha xará e conterrânea, Nanda Nascimento. Como eu gostei, não vou indicar ninguém, quem achar legal, faça também.




* Este post será sumariamente deletado, no dia em que eu souber que terei um filho.