segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Caminho das Índias é um Clone (com trocadilho)

Esses dias ouvi no rádio que o autor João Emanuel Carneiro vinha recebendo um salário mensal de R$ 120 mil para escrever a novela "A Favorita". Comecei a calcular por quanto tempo eu deveria trabalhar para juntar o montante de R$ 120 mil. Perdi as contas. Mas, beleza, justiça seja feita. Nunca em minha vida eu trabalhei tanto quanto eu imagino que um autor de novela das oito (sic) trabalhe. A vantagem desses autores (além, óbvio, do salário) é que uma vez que eles emplacam uma novela no horário nobre nunca mais terão tanto trabalho a executar. Afinal, eu - assim como todos os outros milhões de brasileiros noveleiros - sabemos: um autor de novela das oito (sic)* conta sempre a mesma história, mas com outras palavras.

Assim como todo brasileiro tem um pouquinho de técnico de futebol, acho que temos também um pouco de autor de novela. Modestia à parte, me sinto superapta a integrar a equipe dos principais autores. Pois veja como sei, perfeitamente, como cada um deles realizaria uma cena de casamento, por exemplo:

CENA DE CASAMENTO POR GILBERTO BRAGA

EXTERNA - NOITE - PANORÂMICA DA PRAIA DE COPACABA

EXTERNA - NOITE - ENTRADA DE UMA IGREJA


Um alvoroço se forma com a chegada da noiva. Muitos fotógrafos se amontoam para registrar o momento. A noiva é uma socialite esnobe, filha de um multimilionário, que é sócio no Grupo X.

INTERNA - NOITE - IGREJA

A igreja está lotada. Entre os convidados estão, inclusive, figuras da alta sociedade da vida real, como as Narcisas Tamborindeguy (?) da vida. O noivo olha compulsivamente no relógio. Ele está tenso, não porque está prestes a se casar, afinal ele não vai se casar. A cerimônia faz parte de um plano para desmascarar o pai da noiva diante das centenas de convidados. É que o noivo possui um vídeo que mostra que o pai da noiva foi o responsável pela morte do Fulano de Tal. O outro sócio no Grupo X, morto recentemente em um misterioso acidente de barco. A ideia é que no momento em que todos estiverem no altar, um telão será ligado e o filme será exibido (o legal é que nas novelas do Gilberto Braga não apenas os vilões são mirabolantes, os mocinhos também são muito danadinhos).

TRILHA SONORA: A cena começa com algum clássico da MPB, tipo Bethânia ou Gal e termina com alguma banda de rock internacional das antigas, tipo Rolling Stones.

CENA DE CASAMENTO POR MANOEL CARLOS

EXTERNA - DIA - PANORÂMICA DO LEBLON

EXTERNA - DIA - CAPELA DE SANTA RITA DE CÁSSIA


Todos os personagens da novela estão no casamento. Inclusive os pobres (que, vale dizer, vivem muito melhor que eu). Afinal, é a cerimônia de casamento da filha da Helena. E a Helena, bom, a Helena é amiga de todo mundo. No altar, mãe e filha trocam olhares cúmplices e risinhos amarelos. Helena também troca olhares com um dos padrinhos, e se pergunta, como ele reagiria ao saber que a noiva é, na verdade, sua filha. Bom, mas em breve ele saberá, pois Helena, esperta que só ela, deixou este segredo de anos devidamente registrado em seu diário (ele é o José Mayer, mas nem precisava dizer, né?). Outro padrinho é o Dr. Moretti, médico da família há anos. Ele faz par com a personagem da Júlia Almeida (vulgo, filha do Maneco) que, embora feia, interpreta a irmã do noivo, que é um lindão desses qualquer. A cerimônia é interpretada na íntegra, como se fosse um casamento de verdade. Enquanto o padre realiza a celebração, os convidades tecem comentários corriqueiros como: "É tão lindo se casar na primavera", "O vestido da noiva me lembra tanto o meu", "Espere só até ver os doces que a Maria preparou para a festa. Estão divinos". Fim do casório. Todos seguem para a festa, que renderá, no mínimo, oito capítulos.

TRILHA SONORA: No início do casamento, uma boa bossa nova, claro. Para os noivos saírem da igreja, um pop-rock internacional, tipo Bon Jovi ou Hanson.

CENA DE CASAMENTO POR GLÓRIA PEREZ

EXTERNA - NOITE - PANORÂMICA DAS RUÍNAS DE ALGUM PAÍS DISTANTE

EXTERNA - NOITE - TEMPLO DE ALGUMA RELIGIÃO QUE NÃO É O CRISTIANISMO


Noiva e noivo se encontram pela primeira vez. Ele está feliz. Ela não consegue disfarçar a insatisfação. Está casando apenas para cumprir uma tradição milenar. Enquanto a cerimônia se desenrola, com todos aqueles rituais típicos, a cabeça da noiva está longe. Mais precisamente no Rio de Janeiro, onde vive o homem que ela realmente ama.

EXTERNA - NOITE - CASA DO PROTAGONISTA

Também é noite no Rio de Janeiro (afinal, esse negócio de fuso horário só serve para complicar, né, Glorinha?). O mocinho abre a janela, olha as estrelas, e pensa na amada que está se casando do outro lado do oceano. Numa tentativa de se distrair, ele liga a TV. Está passando alguma campanha de engajamento social, que mistura pessoas da vida real e personagens da novela, dando seus depoimentos sobre drogas/alcoolismo/crianças desaparecidas/cleptomania.

TRILHA SONORA: Marcus Viana

* Justiça seja feita parte II: não sejamos tão restritos. É injustiça dizer que apenas os autores das oito (sic) fazem o bolo sempre na mesma forma. Afinal, o que seria do Carlos Lombardi sem o Marcos Pasquim correndo, sem camisa?