segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Eles

Tenho 12 anos e você se chama Marcos. É loiro. Eu ainda não sei, mas será a único loiro a despertar alguma emoção em mim. Quando te vejo, meu coração parece uma máquina de lavar antiga e trepidante. Tremo toda. Tenho uma foto sua e a olho pelo menos umas 200 vezes por dia. Não me canso de olhar suas olheiras precoces. No recreio te procuro com os olhos. Acho que você não sabe meu nome, e nunca virá a saber. Não importa. Só me importa que você exista. Hoje é o bastante.

Tenho 14 anos e você se chama José. Estou caminhando pela quadra do colégio quando você me chama. “Ei, morena”, você diz. Eu olho. Embora haja outras morenas por ali, é comigo mesmo que você fala. Eu olho e você completa. “Senta aqui. Venha tomar um sol comigo”. Ignoro. Mas gosto. Eu nunca havia te notado. E bastou este convite displicente para que você se tornasse o alvo das minhas atenções. A gente é diferente, mas eu nem ligo. A escola já não tem tanta graça quando você não vem. Um dia você me aborda e me pede um beijo. Tenho medo das regras punitivas do colégio de freiras e declino. O quase-beijo mais emocionante da minha vida.

Tenho 18 anos e você se chama Camilo. Eu quase não sei nada de você, mas quando penso em futuro, não sei como não te incluir. Pior é que já faz tempo. E ainda vai demorar a passar. Faço de tudo para chamar sua atenção. Mas não pretendo chamar mais atenção que você. Só uso sandálias rasteirinhas porque somos da mesma altura. Não quero parecer mais alta. Minhas ilusões se alimentam das suas indiretas. Às vezes eu choro. Acabo de descobrir que esse tipo de coisa pode ser ruim, apesar de muito bom. Espero passar. Passou.

Tenho 20 anos e você se chama Maurício. Te olho pela primeira vez, não sinto nada. Nem na segunda. Nem na terceira. Você é um amigo, apenas. É um amigo, mas está apaixonado por mim. Não suporto a revelação. Me apaixono também. Estamos deitados numa cama redonda. Eu nunca havia me deitado numa cama redonda. Você diz que está calor e eu, sem mais nem menos, respondo “I love you”. “I love you too”, você devolve. O inglês parece amenizar o impacto da declaração. Fico calada uns bons minutos. Você também. A gente se esconde, a gente foge, a gente se ama. Mas se antes apenas existir já era o bastante, agora, gostar já não é suficiente. Adeus.

Tenho 22 anos e você se chama Fábio. Apareceu na minha vida do jeito mais louco que alguém pode aparecer na vida de outra pessoa. Parece história de livro e, de certa forma, é mesmo. Parece que fui eu quem te escrevi. Como assim você é tudo o que eu quero? Não sei se você percebeu, mas é meu ideal. E será eternamente. Não importa quantos outros livros eu leia.

Tenho 23 anos e você se chama José Carlos. Nossa, como eu gosto de você. Ainda não sei porquê. Nem nunca saberei. A gente se diverte juntos. Jogamos também, é verdade. Na maioria das vezes você ganha. Acho que é porque ninguém me ensinou as regras. Tudo bem. Me interessa mesmo o fato de o jogo nos colocar cara a cara. E eu te beijo. E você me beija. E é como nunca. Química? Física? Sei lá. É bom. Vou sentir falta.

Tenho 25 anos e você se chama Jorge. Definitivamente não foi sua conversa que me atraiu. Foi a boca, o pescoço, as mãos e todo o resto. Eu te acho lindo, mas não lhe direi. Vou poupar seu ego de uma explosão. É que você também se acha lindo. E até tenta ser arrogante. Mas não consegue. É menino demais para essas maldades. Eu me irritaria, se não achasse graça. A gente brinca feito a criança que eu já não sou mais. Eu gosto até o dia em que não gostarei mais.

Amanhã terei 26 anos. Mas não sei como você se chama.