segunda-feira, 23 de março de 2009

Teimosia bonita


[desovando textos antigos - parte II]



O que eu acho mais bonito no amor é essa capacidade de zerar o jogo. Estive pensando nisso um dia desses, enquanto minha mãe relembrava as agruras da maternidade. As oito horas em que ela esteve em trabalho de parto para que eu viesse ao mundo – de parto normal e pesando quatro quilos! – foi apenas um capítulo daquela história que começou em enjôos e culminou em telefonemas preocupados de madrugada – que acontecem ainda hoje, vinte e cinco anos após o parto. Daí veio o questionamento óbvio: então, por que engravidou de novo??? “Porque o amor que a gente sente pelos filhos é a coisa mais sublime que existe. Compensa qualquer dor”, ela me disse, daquele jeito que só as mães sabem dizer.
Eu acho que é nisso que reside a essência de qualquer tipo de amor. Essa coisa sublime que compensa todas as outras. Que faz tudo parecer menor, que apaga da nossa memória todas as dores – as de parto e as do coração. A gente sabe que doeu, mas não sente mais.
Só isso justifica nossa insistência em amar. Essa teimosia bonita. Já te aconteceu mil vezes: você chorou, você depositou todas as suas expectativas em quem não poderia suportá-las, você passou noites em claro, você ficou com o coração partido, você partiu outros corações, você disse que os homens não prestavam, você jurou que não queria mais nada sério com ninguém, você escreveu uma carta (nunca enviada) pedindo reconciliação, você fez promessas, você deixou de ser um pouco você, você viu o mundo cinza por uns dias, você morreu um pouco. Porque você estava vivo e é disso que a vida a feita. Porque o mesmo relacionamento que te fez chorar, que te fez criar expectativas, que te fez passar noites em claro, que partiu seu coração e blá blá blá, te levou ao céu. Te deixou enlouquecida olhando para o relógio a cada dois segundos até que chegasse a hora de se encontrar com ele. Te fez trocar de roupas mil vezes antes de escolher o modelito perfeito, mesmo sabendo que ele te achava linda em qualquer modelito. Te levou a contar uma história supercabulosa para seu chefe, só para conseguir uns dias de folga e passar um final de semana inesquecível com ele na praia. Te deu dores na barriga de rir. Te fez chorar ao ler palavras de amor – meio mal escritas – num cartão no dia dos namorados. Quase te matou do coração com uma festa surpresa no seu aniversário. E, no fim das contas, é isso que fica. A parte sublime.
É da nossa ânsia de reviver o sublime do amor que a gente zera tudo. Que a gente deleta do nosso coração a parte ruim. E começa tudo de novo. Quantas vezes for preciso.