quinta-feira, 18 de junho de 2009

Desabafo de uma jornalista diplomada




O boato já existe desde que eu entrei na faculdade, em 2002. Agora, três anos após eu já ter me formado, é um fato. O Supremo Tribunal Federal decidiu pelo não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Eu, evidentemente, sou contra. E poderia listar milhões de motivos, mas vou me ater aos mais óbvios.

O primeiro, sem dúvidas, é a justificativa dada pelo STF que afirma que o diploma de jornalismo fere o direito de liberdade de expressão dos cidadãos não-jornalistas. Como assim???? Estamos vivendo na era da internet em que qualquer pessoa pode criar um blog gratuitamente e falar o que bem entender. Agora, se o ministro se refere ao direito de se expressar livremente nos meios de comunicação de massa, o argumento torna-se ainda mais falacioso. Uma vez que nem os próprios jornalistas podem escrever o que querem. Estão, antes de tudo, submissos a um punhado de instituições e interesses políticos e comerciais. Sem falar que tal argumento descarta as outras funções jornalísticas (como assessoria de imprensa, por exemplo), cujo trabalho não está diretamente ligado à famigerada liberdade de expressão.

Outro fator que não pode ser esquecido é a questão da formação. É óbvio que a visão e a prática adquiridas dentro do mercado de trabalho são muito mais consistentes que aquela que adquirimos em sala de aula. Mas isso vale PARA TODAS AS PROFISSÕES. É fato que o que eu aprendi durante meu período de estudante e que é mais relevante no meu trabalho, hoje, foi o conhecimento que ganhei fazendo estágio. Estágios que eu conseguia por ser uma ESTUDANTE! Não havendo mais a necessidade de estudar, elimina-se também a de estagiar e aí já era. Hoje percebo que, mesmo fazendo faculdade, as pessoas estão chegando cruas ao mercado. Escrever corretamente em português parece ser coisa de outro planeta. Não é possível que o STF não consiga perceber que eliminando-se quatro anos de estudos as coisas tendem a piorar.

Por fim, acho que deve ser levado em conta também a importância da figura do jornalista para a sociedade. Creio que o diploma de medicina jamais seria eliminado uma vez que é muito claro que o médico trabalha com vidas humanas. E o jornalista não? Só alguém que viveu o último século em outra galáxia não conseguiria perceber a influência da mídia em momentos decisivos da humanidade. A imprensa tem um grande poder e, portanto, pode causar um grande estrago se representada por pessoas despreparadas. Não por um acaso, há tempos a imprensa vem sendo chamada de 4º poder.

E então querem tirar a obrigatoriedade de um preparo acadêmico do 4º poder? Ah, mas é claro. Havia me esquecido de que vivemos num país onde os primeiros poderes - executivo e legislativo - podem ser exercidos por analfabetos funcionais. No judiciário, no entanto, temos bacharéis em direito, justamente o curso mais fácil de ser aberto. Ultimamente, em toda esquina, abre-se uma nova faculdade de direito. Afinal, é um curso que não demanda tantos recursos, como laboratórios e equipamentos. Assim, advogados são fabricados em massa. Aliás, cuidado! Se você tropeçar na porta de uma faculdade de direito é capaz de ser colocado pra dentro, como aprovado no vestibular.

Ok. Eu sei que para se ocupar um cargo no poder judiciário brasileiro não basta ser formado em direito. E também não estou desmerecendo os advogados, classe da qual alguns amigos e parentes meus fazem parte. O que eu estou querendo dizer é que o ensino superior no Brasil está problemático nas mais diversas áreas e não me parece coerente perder tempo eliminando diploma de jornalismo. Não faz o menor sentido!

E minha vontade de desabafar vem daí. Do desgosto que me bate, às vezes, de ser de um país onde ministros ficam votando em medidas para diminuir o tempo de estudo das pessoas. Não tenho medo do meu trabalho ser afetado por isso porque, conhecendo a realidade da minha profissão, sei muito bem que fazer jornalismo não é como fazer comida (como toscamente comparou o ministro relator Gilmar Mendes). Eu só lamento ao constatar que o que já está ruim, pode ficar ainda pior.

A mídia é o meio que o povo tem para ficar esclarecido. Mas é sabido que governo nenhum está interessado em ter um povo esclarecido. Com uma mídia despreparada para esclarecer e informar, tudo fica muito mais fácil.

É tão óbvio que chega a ser ridículo.

UPDATE: "Já falei pra minha mãe mandar o currículo dela para a Rede Minas", do irônico-amigo-jornalista Rumenigue Marquiori.