sábado, 25 de julho de 2009

Sou chata! Se me encontrar no ônibus, me evite

Ando para baixo e para cima diariamente e, quando não tenho ninguém que me leve, faço minhas andanças de ônibus, metrô ou táxi. Não sofro muito por isso, uma vez que é uma limitação que eu mesma me impus, graças ao meu pânico automobilístico. DETESTO dirigir, mais que jiló. (A propósito: minha carteira de motorista venceu em fevereiro. Alguém sabe se corro o risco de tê-la perdido? Ah, sim, detalhe: fevereiro de 2007). Enfim, o fato é que durante o usufruto dos meios de transporte público, muitas cenas pitorescas me acontecem. E algumas desagradáveis também. Da linhagem das desagradáveis existem duas situações que eu ODEIO - mais que jiló e menos que dirigir:

Primeira: encontrar semi-conhecidos. Sabe aqueles ex-vizinhos, aquele povo que estudou com a gente há 300 anos atrás? Pessoas com as quais a gente não tem assunto mas, civilizados que somos, ficamos com uma certa obrigação de inventar conversas, até que se cumpra o trajeto. Uma vez me aconteceu de encontrar uma menina que ia comigo na mesma van para a faculdade. Nessa época, a gente mal se falava, mas ali, diante de tantos outros desconhecidos, engatamos uma conversa como se fôssemos amigas de infância. O que foi bom. Silêncio incomoda, nesses casos. Pra minha sorte ela falava muito. E pro meu azar ela desmaiou. Sim, DESMAIOU. Ela lá, caída no chão do ônibus. Eu lá, sem saber o que fazer. O povo lá, me lançando olhares recriminatórios, como quem diz "ô desnaturada, faz alguma coisa pela sua amiga". Situação chatíssima.

Segunda: homens desconhecidos que puxam assunto com segundas intenções. Principalmente em dias que eu não estou a fim de conversar nem com velhinhas simpáticas (adoro todas, com essas eu mesma puxo assunto), muito menos com homens desconhecidos que puxam assuntos com segundas intenções. Aconteceu hoje.

Eu estava no ônibus, voltando de Lagoa Santa, com o fone no ouvido, viajando nas músicas e nas minhas ideias quando um ser, aparentemente humano, se planta na minha frente. Ele trajava uma camisa laranja fuorescente, onde estava escrito com um verde igualmente fuorescente: NO DRUGS, USE MUSIC! Impossível não perceber aquele vulto luminoso. Na orelha direita, um brinco de pedrinha azul (igualzinho o que a minha irmã usou no dia em que nasceu). Na mão esquerda, um anel prateado no mindinho, combinando com a corrente no pescoço. A mesma mão segurava uma latinha de Skol. Parou, ignorou minha cara de mierda e meu fone no ouvido e puxou assunto da forma mais sofrível:

- Esquentou, né?
- Hã? (abaixando o volume do som).
- Esquentou.
- É.
- Gosta de calor ou frio?
- Os dois.
- Eu gosto mais do frio. Mas essas mudanças climáticas são culpa do El Niño e da La Niña.
- Ah...
- Você gosta do Marcelo D2?
- É...não muito.
- Ah, que pena, eu vou num show dele hoje com a minha filha.
(Permaneci muda tentando entender o "que pena". Com 30 segundos de "conversa" ele já queria me convidar pra ir no show do D2. É isso? Acho que sim, pois continuou.)
- E de cinema, você gosta?
- Ahan.
- Nossa eu vi um filme super legal sobre um conflito na Chechênia. Era a história de uma...
(Bom, não consigo reproduzir essa fala porque engatei meu cérebro no modo "pensamento paralelo" e comecei a pensar sobre o suposto fim do mundo em 2012. Mas o cara era guerreiro e voltou a me fazer perguntas.)
- Você tá vindo de onde?
- Lagoa Santa.
- Nossa, amo Lagoa Santa. Lá tem muitas grutas. Você sabia que o Lula liberou a destruição de 50% das grutas do Brasil pra fabricação de cimento. Sabia?
- Não.
- Sim, liberou. Lagoa Santa tem uma formação rochosa muito parecida com a de Sete Lagoas, mas Sete Lagoas é uma colina. Do alto do Morro Santa Helena você avista a cidade toda. Já foi lá?
- Não.
- Tô falando muito, né?
- Não, que isso... (ai, as vaselinas sociais. Por que eu disse isso quando eu queria dizer: Sim, você não cala essa sua boca e eu já estou enjoada de ouvir essa conversa fiada e ficar olhando pra essa sua camisa acesa).
- Então, mas é que eu acho que o ser humano deveria valorizar mais as relações físicas e não apenas as virtuais e blábláblá....
- É...
- E o Sarney? E o namorado da neta do Sarney? E o Lula? E o lobby? E blábláblábláblá...
- É...
- O termo sustentável está banalizado. Ele não devia ser utilizado pela ecologia e sim pela economia...e blábláblábláblá...
- É...
- Eu estudo geografia. Achei que ia ficar livre da matemática mas nem fiquei e blábláblábláblá....
- É...
- Você fala pouco, né?
- É... (foi o que eu disse, mas pensando em dizer: Não! É que eu sofro de mudez temporária quando entro em contato com gente chata usando camisa estilo abadá e, por favor, vê se não vai com essa camisa ao show do Marcelo D2!).

Quando, finalmente, o ônibus chegou à estação, ele tenta a última cartada. Última não, penúltima:

- Quer tomar um sorvete?
- Não, obrigada, estou com pressa. (A vaselina de novo. Falei uma coisa e pensei: Eu até poderia tomar um sorvete agora se eu não estivesse com as vias auditivas entupidas por conta do excesso de conversa fiada. E se eu tivesse treze anos e você fosse meu coleguinha de escola. E se eu gostasse de sorvete e de pessoas com camisas berrantes).
- Tudo bem. Qual é o seu nome mesmo?
- Fernanda. (Odeio "qual é o seu nome mesmo", como se eu tivesse dito meu nome antes).
- Fernanda de quê?
- Hã?
- É, seu sobrenome. Quero te achar no Orkut.
- Fernanda Magalhães.
- Vou te adicionar.

Virei as costas e fui.

Fernandas Magalhães do meu Brasil, me perdoem! Não é nada pessoal!