quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Eu reclamo da reclamação




Eu tenho muita pena de quem só sabe reclamar. Uma vez alguém me disse que pena é um sentimento muito próximo da raiva. Não concordo plenamente. Mas nesse caso, procede. Tenho pena porque para mim é evidente que essas pessoas nunca serão felizes, a menos que mudem de atitude. E tenho raiva porque essas pessoas contaminam as outras com a nuvem negra que carregam sobre si.

Não quero fazer o discurso da Pollyana e também não estou escrevendo esse texto porque não tenho nada do que reclamar na vida. Se eu quisesse apenas reclamar, repertório não me faltaria. Aliás, eu já fui assim, uma reclamona de carteirinha, e sendo assim, descobri que isso não leva a nada. É feliz quem aceita. Quem tem a capacidade de compreender que a vida é feita de altos e baixos.

Reclama-se que os homens são todos iguais. Reclama-se que o trânsito está caótico. Reclama-se que na tevê só passa porcaria. Reclama-se que a internet afasta as pessoas. Reclama-se que os jovens de hoje em dia não respeitam os mais velhos. Reclama-se da TPM. Reclama-se do cabelo que nunca está bom. Reclama-se da falta de tempo. Reclama-se da falta de dinheiro. Reclama-se que a família Sarney é uma quadrilha. E mais uma infinita lista de reclamações chatas, clichês e vazias. Vazias, sim. Porque vejo pessoas diariamente repetindo o coro dos descontentes como se fossem ventríloquos. Pelo simples hábito de reclamar.

Será que na vida dessas pessoas nunca acontece nada de bom? Acontece sim! Só que o que é ruim ganha proporções gigantescas e o que é bom passa despercebido. Afinal, todo mundo conhece ao menos um cara legal (eu conheço vários). Todo mundo tem um dia em que pega todos os sinais verdes. Todo mundo já se pegou acompanhando uma novela, um seriado ou simplesmente uma reportagem na tevê. Todo mundo tem Orkut, Twitter e Blog e, no fundo, adora essa praticidade. Todo mundo sabe que ainda existem jovens que respeitam os mais velhos e que antigamente as coisas nem eram tão diferentes assim. Todo mundo sabe que TPM é ruim, mas passa. E é uma ótima desculpa para ficarmos histéricas e voltar atrás e nos entupirmos de chocolate. Todo mundo tem um dia em que se olha no espelho e diz: hoje até Gisele invejaria meu cabelo. Todo mundo está sem tempo porque está gastando o tempo...vivendo! Todo mundo está sem grana, mas acaba dando um jeitinho de fazer o que quer. Todo mundo sabe que a família Sarney* é uma quadrilha, mas...bom, nesse caso não tem mas. Eles são uma quadrilha mesmo. E a gente tem mais é que reclamar.

Porque reclamar faz parte. Reclamar é um direito universal. Reclamar é uma forma de tornar mais leves os nossos fardos. E isso eu também aprendi durante minha fase reclamo-de-tudo-sim-e-daí. Fase que teve fim justamente num dia em que eu tinha tudo para reclamar. Foi no fim do ano passado. Em 48 horas eu havia sido demitida e levado um pé na bunda. Estava plantada diante da televisão me sentindo a pior dos mortais, quando passou no jornal uma matéria sobre aquelas enchentes que destruíram cidades em Santa Catarina. Me chamou a atenção a história de uma mulher que havia saído para lever seu filho ao médico. Não bastasse não ter conseguido ser atendida, ao voltar com filho doente para casa, ela descobriu que não tinha mais casa. Não tinha mais nada. Tinha um filho doente no colo. Me senti um lixo por até então estar acreditando que meu problema era o pior do mundo. Fui ao meu quarto, juntei algumas roupas e levei para a Cruz Vermelha. Nunca senti falta. Nem das roupas. Nem do ex-emprego. Nem daquele que me deu um pé-na-bunda.

Reclamar é humano. Mas SÓ reclamar é autodestrutivo.

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