quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Rehab





Há quem seja viciado em entorpecentes, ácido ou nicotina. Há quem seja viciado em álcool, chocolate ou coca-cola. Há quem seja viciado em compras, internet ou academia. E há quem seja viciado em se apaixonar. Faz algum sentido. A química explica que as paixões liberam sei lá o quê e deixam as pessoas sei lá como. Falta de conhecimentos químicos à parte, é claro para mim que sou uma pessoa viciada nesse sei lá o quê. Adoro me sentir sei lá como. E, como todo viciado, sempre busquei incessantemente objetos que pudessem satisfazer os meus vícios. No início, ainda adolescente, era fácil. Um contato, um trago que fosse e pá! Já estava apaixonada. Mas com o tempo, o corpo vai ficando mais resistente. Exigindo dosagens mais altas. O que antes satisfazia, passa a não ter a menor graça. Mas nada que uma boa dose de persistência e imaginação não resolvesse. E não é para isso que existem os amores inventados? Inventei um punhado deles. E, às vezes, inventaram por mim também. Experimentei de tudo e em diversos níveis. Paixões de dias, paixões de anos. À primeira ou a milionésima vista. Simultâneas ou exclusivas. Correspondida ou não. Consumada ou não. Inventada ou não. Mas sempre, invarialvelmente: uma atrás da outra. Sem trégua. Vício, afinal. Ou você o alimenta ou pira. E eu continuavam a alimentar meu vício com todo o amor que existe dentro de mim. Com toda a dedicação que sou capaz de oferecer a alguém. E com toda essa minha falta de tato para demonstrar essas coisas. E depois de uma sequência de viagens vertiginosa, deu-se o inevitável (até que demorou): overdose! E então eu parei. Recolhi minhas doses de amor e paixão distribuídas por aí e guardei tudo para mim. Há meses. Entrei numa espécie de hibernação. Uma paz de espírito só experimentada quando...bom, nem lembro quando eu havia me sentido assim da última vez. Mas estamos falando de vício, afinal. E nada é tão simples. Há pouco tempo começaram a aparecer os primeiros efeitos colaterias da abstinência. Músicas românticas me deixam confusas. Quando as ouço minha cabeça parece uma tevê sem antena que não consegue sintonizar nenhuma imagem. Me esforço para ver um rosto, mas é só chuvisco. O futuro então, antes cheio de histórias bem planejadas, agora continua sendo um tanto de histórias bem planejadas (não consigo evitar), mas protagonizadas por um espectro. Não está fácil. Estou transbordando e preciso despejar isso em alguém (perdão, mas eu não sei um jeito mais polido de dizer isso. É bem isso que eu preciso). Só tenho medo de, devido à crise de abstinência, despejar em qualquer um. Como um alcoolátra em recuperação que, diante da falta de bebidas, se entrega a um vidro de perfume.

Então não me ofereça um trago se não puder manter meu vício.