quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Belo Horizonte, outubro de 2009



Querido,





em primeiro lugar, já peço desculpas pela minha falta de tato. É que faz mais de dez anos que não escrevo nenhuma carta. Carta de amor então, bom, carta de amor eu não escrevo há 26. E, ao fim desta que escrevo agora, continuarei sem ter quebrado o jejum que dura toda a minha vida. No mundo das cartas, querer ser carta de amor é como querer ser rei ou rainha no mundo dos humanos. E esse meu bilhete mal escrito não pretende tanto. Embora ele esteja salvo no meu Bloco de Notas com o nome de "cartadeamor". Sorte a sua é que a tecnologia te poupa da minha caligrafia torta, você teria dificuldade em conseguir decifrar as palavras. Dessa forma, ao menos isso é garantido. Você conseguirá distinguir as palavras que agora ordeno. Só não sei se entenderá o que elas querem dizer juntas e organizadas nessa disposição. Para ser bem sincera, sem querer te ofender nem nada, eu acho que você não entenderá. Ou pior: você fingirá que não entendeu. Você faz isso o tempo todo. Desde que a gente se conhece. Eu não sei o que pode ser mais grave: ser um lerdo que não capta nada ou ser um fingido. Você pode ser as duas coisas, se quiser. Porque eu não me importo. Aliás, se você fosse as duas coisas estaria me fazendo um grande favor. Eu preciso reconhecer seus defeitos com urgência. Quem sabe assim eu não caio na real. O encanto pode se quebrar, sei lá. Se é que isso é possível. Não se trata de uma paixão cega. Eu não falo para minhas amigas que você é lindo porque, definitivamente, você não é. Percebe a danação? Eu consigo listar pelo menos uns 30 homens que eu conheço que são mais bonitos que você e - dane-se todos eles - eu gosto é de você! Isso me assusta. Me faz pensar que talvez não exista encanto nenhum a ser quebrado. Talvez eu esteja falando de algo intacto que nasceu assim e assim ficará para sempre. Ou até eu explodir de agonia. Sejamos francos. Eu não preciso de você e você sabe disso. Nós não temos a mesma profissão. Minha vida é muito mais divertida que a sua. Eu tenho muito mais amigos. Até feliz eu consigo ser. E muito. Não há nada em que você possa me ajudar. Mas eu quero você. Mesmo sem precisar. Vício é assim. Por que eu não lhe sou direta? Porque, infelizmente, não é assim que deve ser. Os homens, em pleno 2009, ainda não estão preparados para serem conquistados. Eu teria coragem para isso. Mas sei que você não teria coragem para suportar. Você escorregaria, como você sempre faz. Gentilmente, me mantendo por perto. Eu sei como é. Talvez eu seja sua última carta. Você me guarda na manga para o caso de dar tudo é errado. Se é assim: tome nota. Quando der tudo errado você vai olhar para sua única vida, que é essa que estamos vivendo agora, sem depois, e perceber que não saiu do lugar, como um cachorrinho fadado a perseguir o próprio rabo eternamente. Você vai juntar uns versos meus espalhados por aí e perceber - sim, você vai perceber, você não é burro - quanta vida deixou de viver, quanto amor abriu mão de receber, quantas gargalhadas de arrancar lágrimas você deixou de dar (modéstia à parte, isso eu faço bem). Não estou te praguejando. As palavras é que teimam sair amargas, por mais que as intenções sejam doces. Como eu desejaria mal ao único homem do planeta que teria meu "sim" absoluto, independente de qual fosse pergunta? (Veja bem, você vive no mesmo planeta que o Jhonny Depp, isso é grande coisa). Talvez eu devesse tentar uma rota de fuga. Mas como se você é a própria fuga? Mas como se é ao lugar do meu coração onde você mora que eu recorro cada vez que tudo dá errado? Pois é. Você também é minha última carta. E se eu jogasse baralho, faria um trocadilho incrível envolvendo zap e sete de copas. Mas eu não entendo nada de jogos. Não sei cozinhar. Não sei nadar. E os únicos desenhos que eu faço são aqueles bonequinhos de bolinha e pauzinho. E são tantos outros defeitos que se eu te contasse agora você correria de mim mais do que já corre. E tenho algumas qualidades também. Sendo que a mais relevante delas, diz respeito a você: a capacidade de te devotar todo o meu amor.



Sem mais para o momento.




F.P.B




p.s.: queridinhos. Meu blog não é exatamente um diário. O que significa que nem tudo o que eu escrevo aqui corresponde à realidade. Talvez esse post seja um exemplo disso. Talvez.