terça-feira, 20 de outubro de 2009

Budapeste

Houve um questionamento que nunca havia passado pela minha cabeça até eu ler Budapeste*, do Chico, e que voltei a remoer mais intensamente agora que vi o filme. Bom. Adianto para os céticos em relação aos filmes baseados em livros. Mas adianto também que tudo o que fala sobre palavras tem a tendência a me ganhar. Eu já gostava do filme antes de vê-lo, portanto.


Para quem não sabe, trata-se da história de um homem que se apaixona pelo idioma húngaro. E, nele, até consegue escrever poesias. Coisa que nunca havia feito em português. Aí é que tá! O que arrebata a gente são as palavras ou a língua? Eu gostaria tanto de ler e escrever se fosse uma russa, falando em russo e tendo sido alfabetizada em russo? Alguma coisa me diz que não exatamente. Um idioma muda tudo. Imagine ler Luis Fernando Veríssimo em alemão! Não, isso não existe. Alemão é gutural demais para a leveza das palavras de Veríssimo. Assim como espanhol é dramático demais para qualquer coisa. Eu, aliás, quando estou achando um filme muito monótono logo mudo a legenda para o espanhol. Em cinco minutos já estou chorando. O que me faz acreditar que se minha língua-mãe fosse espanhol eu seria uma escritora e uma leitora muito mais voraz. Eu amo português, mas espanhol é o meu húngaro.

Budapeste fala ainda da angustia de ser um ghost-writer, profissão do homem que se apaixona pelo húngaro. Eu fiz, e faço, muitos trabalhos como ghost-writer e não sofro nada por isso. Tudo o que faz parte da nossa vida são coisas fabricadas por outras pessoas. Não vou ficar morrendo se tem gente usando textos fabricados por mim. Fico é feliz e lisonjeada por conseguir fazer alguma coisa nessa vida pela qual alguém queira pagar. No fim das contas (literalmente), é disso que a gente vai precisar. No entanto, só tenho esse desprendimento com meus textos que são fabricados. Sob encomenda e, normalmente, sobre assuntos que não me interessam nem um pouco. São palavras que saem de uma parte muito superficial de mim e nada dizem a meu respeito. Agora, quanto aos textos que são sentidos - e não fabricados - morro de ciúmes. Não que eles sejam geniais. Não mesmo. São coisas como essas porcarias que vocês leem aqui no blog. Mas são as minhas porcarias. Que saem da minhas Fossa das Marianas** interna. E, por essas, eu jamais aceitaria ver outra pessoa levando o crédito. Graças a Deus que ninguém tem interesse nisso mesmo. Uma cena que me corta o coração em Budapeste é a do gosth-writer no lançamento de um livro que ele escreveu com sua alma e, obviamente, é assinado por um poeta famoso. Além da angústia do sucesso fantasma, ainda tem que levar para a casa uma dedicatória do "autor": "Para você, essas despretensiosas palavras".



* Lili, eu não roubei seu livro, eu juro. Ele continua intacto, limpinho e sem nenhuma orelha, junto com o do Marçal.
** Para quem zerou em Geografia, Fossa das Marianas é o ponto mais profundo dos oceanos.