quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?*






Tenho duas lembranças muito marcantes de puxões de orelha recorrentes em minha infância. Um vinha do meu pai, toda vez que me flagrava assistindo televisão com a cabeça quase grudada na tela. "Quando você ficar adulta e com a visão prejudicada vai se arrepender disso".

O outro vinha da minha mãe e tinha a ver com minha alimentação nada saudável (tema preferido por dez entre dez mães). "Quando você ficar adulta, vai ter nojo dessas porcarias e aprender a importância de um bom prato de verduras". Eu nem respondia, só pensava: "Vê lá. Quando eu ganhar meu primeiro salário vou comprar tudo em Fandangos".

Hoje, com 26 anos e quatro graus de miopia em cada olho, acho que talvez eu devesse ter ouvido meu pai. Ou talvez eu pudesse ter optado por "gastar" minhas vistas com algo mais útil. E não com Malhação e MTV, por exemplo. Eu amava Malhação e MTV. AMAVA. E, hoje, não consigo assitir nem dois minutos e entendo: não é que tudo tenha virado um grande lixo. Talvez sempre tenha sido um grande lixo. A diferença é que eu cresci. Afinal, ainda existem pessoas que amam Malhação e MTV, da mesma forma que a minha prima de cinco anos idolatra a Xuxa - que anda tão patética, para mim - com a mesma intensidade com a qual eu a idolatrava vinte anos atrás. Cresci, mesmo. E percebo isso não só quando não consigo ficar parada diante da televisão. Mas, principalmente, quando preciso emitir notas fiscais, declarar imposto de renda e fazer exames preventivos femininos. Minha agenda deixa evidente quão adulta eu me tornei. Sempre tive agendas. As de antes, eram para anotar as datas de aniversário dos amigos e deixar que eles me escrevessem mensagens (e também para guardar papel de bombom, guardanapo e outras relíquias que atraiam formigas para o guarda-roupas). As de hoje, são para anotar horários de reuniões, entrevistas e dias de pagar a fatura do cartão de crédito e outras dívidas. E eu que pensava que, quando adulta, poderia fazer o que quisesse da vida. É que me avisaram que quando a gente cresce as vistas podem ficar prejudicadas, mas deixaram de me avisar sobre outras coisas. Ninguém me falou que, no fim da história, nem sempre o príncipe fica com a princesa. Ninguém me falou que meu pai não era um super-herói. Ninguém me falou que a gente pode até fazer o que quiser, desde que agrademos a todos. O impossível.

Mas, sabe, nem tudo está perdido. Quem falou que só porque eu sou adulta eu gosto de verduras? Deus me livre! Não cheguei ao absurdo de gastar todo o meu primeiro salário em Fandangos. É que, na verdade, depois de uns tempos passei a gostar mais daqueles mais baratinhos, que parecem isopor. Hummm. Delícia! A alegria num pacotão de setenta centavos. E maria-mole? E paçoca? E algodão doce? E pipoca? E maçã do amor? E brigadeiro? E pirulito da Chiquinha? E guarda-chuva de chocolate? Mas nem que eu viva mil anos eu vou preferir salmão, salpicão e salada às minhas guloseimas. Nem que depois eu tenha que ingerir litros de chá verde para aliviar a consciência da adulta neurótica. Como também nunca vou trocar minhas calcinhas de cerejinha, estrelinha, florzinha, coraçãozinho por lingerie de renda vermelha. Doa a quem doer. E, quando casar, talvez deva negociar com o marido um lugar na cama para minhas girafas de pelúcia. E entre as reuniões e entrevistas devidamente registradas em minha agenda estão também os compromissos com os amigos: os dias de festa à fantasia, os dias de karaokê, os dias de festa surpresa, os dias de Imagem & Ação, os dias de ir ao parque Guanabara. Para novembro, por exemplo, já tenho dois compromissos muito importantes. Dia 13: coquetel de lançamento de um projeto que encabecei. Muito adulto. Dia 20: lançamento mundial do filme Lua Nova, da série Crepúsculo. Muito adolescente. Afinal, é uma agenda de compromissos. Mas ela é cor de rosa, tem gliter e adesivos.

Acho assim mais legal. Esse negócio de não amadurecer nunca é meio doentio. E amadurecer demais é de uma monotonia irritante.

*Então, respondendo à pergunta de Confúcio, que chegou a mim pela minha amiga Calypso, acho que minha idade seria 15 anos se eu não soubesse quantos anos tenho. Uma boa média.
** Sim, esse neném da foto sou eu. E, sim, eu tinha a cabeça amassada.