segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Nunca vi nem comi, eu só ouço falar



Simplicidade é o último nível de sofisticação. Bonita a frase, não? Pena que não é minha. É do Leonardo da Vinci. Não sei dizer ao certo a que ele se referia quando a pronunciou, creio que não era sobre comida. Mas poderia ser. Me lembro bem de duas ocasiões na minha vida nas quais eu teria trocado qualquer coisa por um bom prato de arroz, feijão, bife e batata. Na primeira, eu era muito nova e idiota, e fui a um restaurante de comida japonesa com um namorado. Ele, toda felizão, pois era sua comida favorita. Eu, toda tensa, pois nem sabia manusear hashi. Me lembro de vê-lo enchendo o prato daquelas coisas todas que até hoje não sei o nome - pois deixei de ser idiota, mas continuo odiando comida japonesa - e eu fazendo o mesmo. Pelo puro e simples prazer de agradar o outro. Pedi uma Coca - saquê já seria demais - e pensei que facilmente colocaria tudo aquilo pra dentro. Mas quem disse? Até hoje eu me lembro da sensação de eu mastigando aquelas coisas frias e sem gosto, a garganta fechada, a mandíbula doendo de tanto mastigar, o olho cheio d'água. Sério. Se você gosta de comida japonesa, se imagine sentado numa mesa mastigando terra e entenderá a minha situação. Horrível elevado à milionésima potência, com o agravante de que eu estava morrendo de fome. Enfim, depois de muito custo engoli uns três sushis e falei que estava cheia. Bom para meu acompanhante que, sem o menor sinal de ter percebido meu mal estar, comeu o que eu tinha deixado no prato.

Algum tempo depois, fui jantar na casa de uma amiga da minha mãe. Uma madame afetada, com mania de sofisticação. De entrada, ela serviu caviar. Eu nunca havia comido e, para falar a verdade, não achei assim tão horrível muito menos tão gostoso. Prefiro mil vezes coxinha. Mas deu para suportar. O pior foi o jantar em si. Um trouxinha, amarrada com uma fitinha, boiando num caldo azul claro (que até hoje eu não sei se era parte da receita ou se ficou azul por conta de um acidente - a la Bridget Jones). Não tive coragem e tive de dispensar. Claro! Eu odeio azul até para roupas, como vou COMER uma coisa azul? Constragida e não querendo me deixar sem jantar, a anfitriã me ofereceu carne de javali. Bem melhor que a coisa flutuante. Tirando carne de cobra e de cachorro, as outras eu aceito bem, embora o que realmente me faça feliz seja bife de boi, fígado de boi e picanha.

Com o passar do tempo eu fui aprendendo a respeitar um pouco mais a alta gastronomia e a me comportar melhor em jantares mais requintados, digamos assim. Mas quando tenho a oportunidade de escolher, eu fico mesmo é com o feijão tropeiro. Como em café da manhã de hotel. Pode ter um milhão de quitutes, eu sempre vou comer pão de queijo.

E quando eu tenho a opção de dispensar, eu dispenso. Como no coquetel que eu fui um dia desses. A cada dois minutos, um garçom aparecia me oferecendo uma tacinha com sorvete de manjericão com presunto de Parma. Gente, alguém precisa avisar pra esse povo que manjericão e presunto de Parma são ingredientes de pizza e não de sorvete!

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A foto é de um Boeuf à la Bourguignonne, que foi a receita que demos numa matéria que fiz sobre gastronomia francesa (leia aqui). Trocando em miúdos: músculo bovino com legumes. Mas pra quê simplificar se você pode complicar, não é mesmo?