segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Caso de ano novo



Então, com a chegada de dezembro, todo mundo fica meio nostálgico. Lembranças do ano que está acabando e lembranças de outras festas de fim de ano. Nessa época, eu, por exemplo, sempre me recordo da maldição do tênis branco.
A maldição do tênis branco foi inaugurada há exatos vinte anos, na passagem do ano de 1989 para 1990, quando eu vivia os sabores e dissabores dos seis anos de idade. Como uma boa família mineira, naquele ano, como em tantos outros, eu e meus familiares viajamos para passar o reveillon em alguma praia do Espírito Santo. Até onde me recordo, ceiaríamos em algum restaurante da orla mas, antes, assistiríamos à queima de fogos que acontecia na praia. Eu estava toda serelepe, vestida inteiramente de branquinho e usando, pela primeira vez, o lindo All Star de cano alto branco com estrelinhas rosa, que eu havia ganhado naquele Natal. Cerca de meia hora antes da virada, porém, ploft. Eu dei o maior pisão em um cocô. Um cocô humano para piorar, e muito, minha situação. Minha mãe tentou contornar o estrago, esfragando meu pé no meio-fio, na areia. Mas nada resolveu muito porque eu já estava impregnada com aquele odor. E, bom, a sinceridade das crianças pode ser muito cruel, às vezes. Meus primos não me pouparam. Começaram a rir da minha cara, a apontar pro meu pé, a falar comigo apenas com os narizes devidamente tampados. Eu, claro, já estava quase explodindo de vontade de chorar, mas não podia (meu pai proibia choro). Minha, muito boa, como sempre, ficou com dó de mim e me levou de volta para a casa. Passamos o reveillon sozinhas, assistindo E.T (é, o filme do Spielberg) na televisão e o tênis de molho no tanque.

Anos mais tarde, não estou muito certa da data, mas acho que eu tinha treze anos, ganhei um outro tênis branco no Natal. Claro, fui com ele à festa de Ano Novo, afinal, o caso do cocô havia sido apenas uma fatalidade. Sem falar que, naquele ano, a festa da família não seria na praia e, sim, em Belo Horizonte, na casa da minha tia, onde não há grama, mato, cachorro, nem pessoas com o hábito de fazer suas necessidades no chão. Ou seja, não existia a menor chance de alguma coisa batizar meu tênis novamente. Estávamos lá, eu e meus primos, conversando felizes. Quando, por algum motivo que até hoje eu não consigo entender, um vizinho deliquente tem a brilhante ideia de lançar ao ar uma manga gigante e podre. Pois é. No reveillon é assim. Tem gente que solta fogos, tem gente que joga confete, serpentina e champanhe e tem gente que joga manga podre. Naturalmente, havia muitas pessoas na festa. Mas, mais naturalmente ainda, antes de cumprir sua trajetória até o chão a manga fez um rasante pela minha roupa e terminou explondindo, literalmente aos meus pés.

Eu e minha eterna sina de ser sorteada (pelo menos é uma regra que vale para coisas boas também).