sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Caso de natal



- É, Fernanda, ele não existe.


Foi assim, com essa frase fria, áspera e deveras desaforada que duas primas minhas me contaram a verdade. Sem medir as palavras e as consequências me revelaram, numa noite chuvosa, típica das que precedem o natal, que o Papai Noel era uma farsa.

Não chorei, não questionei. Apenas quis ficar sozinha, como faço até hoje quando me sinto angustiada. Sim, não é exagero dizer que fiquei angustiada. Fiquei, e muito. Eu que, até aquele momento só havia sentindo algo semelhante apenas uma vez – na ocasião em que descobri que a Vovó Mafalda era homem – via mais um mito desmoronar.

É verdade que, desde que o bom velhinho havia visitado o Jardim de Infância onde eu estudava, no ano anterior, nosso relacionamento não estava lá, essas mil maravilhas. Eu aguardei ansiosamente pelo momento daquele encontro e soube esperar, resignada com a condição de última da fila – oh sina de ser a maior da turma desde criança. Eu só não imaginava que, quando finalmente, chegasse minha vez, Papai Noel estivesse todo amarrotado, suado, nervoso, dando beliscão – provavelmente aflito para ir ao banheiro, fumar, ou qualquer outra atividade, nada lúdica. Nem que eu receberia uma lembrancinha toda campenga, faltando o lacinho, e sem a possibilidade de troca, afinal era a última do saco. E eu que achava que ver Papai Noel de saco cheio era coisa boa, voltei para a casa chateada. Mas meus pais – sempre eles – me fizeram compreender que a culpa não era dele. E sim, das tradicionais filas brasileiras que não poupam problemas nem para velhinhos vindos de outras dimensões.

No fim das contas, não foi nada que abalasse o encanto por aquela figura que havia me presenteado com a Boneca da Xuxa! Só eu tinha a Boneca da Xuxa em todo o Jardim! Nem a Mariana tinha! Ah, ele devia gostar mesmo de mim. E o fogãozinho que acendia de verdade? Todas as minhas vizinhas queriam um daqueles. E eu tinha dois! Ganhei no mesmo dia, um da minha madrinha, outro do Papai Noel. Isso eu não entendi. Se o bom velhinho tudo pode, por que ele não adivinhou que a madrinha me daria esse brinquedo e trocou de presente? Mas tudo bem, de certo estava muito ocupado preparando suas renas para a longa jornada natalina. Também não entendi como ele conseguiu entrar pela janela do meu quarto com a minha bicicleta rosa. Mas conseguiu, ela estava lá, atrás da porta, em cima do meu sapatinho. Vai ver ele também é usuário de pílulas de nanicolina, tal como o Chapolin.

Fiquei um bom tempo assim, imersa em minhas lembranças que se misturavam com a frase cortante das primas iconoclastas, "Ele não existe", e com as revelações que vieram logo em seguida: "É o seu pai quem compra seus presentes", "Quem guarda a cartinha que você deixa na janela é a Tia Léia. Não tem duende nenhum que vem buscar".

Meus devaneios foram interrompidos com a repentina entrada de meus pais em meu quarto. Me vendo cabisbaixa, no canto da cama, questionaram "O quê aconteceu, Nanda?". "Aconteceu que eu descobri que eu estou sendo enganada há CINCO anos. Tem CINCO anos que eu mando cartinhas para aquele velho babão e agora eu soube que ele não existe!", mas isso eu não disse, eu só pensei. Pensei também que, talvez, a descoberta da verdade implicasse, automaticamente, no fim das regalias natalinas, e não querendo arriscar o salão de beleza da Barbie que eu havia pedido para aquele ano, respondi displicentemente. "Nada, não. Estou só pensando se o Papai Noel já recebeu minha cartinha".

p.s.: Esse texto é velho e já foi publicado no meu ex-blog, em 2006. Mas eu publiquei de novo porque...eu quis!