terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fernanda Pinho Barbosa nasceu no primeiro domingo da primavera de 1983. Já nasceu de olhos abertos e chupando o dedo. Não foi um bebê que chorasse muito. Não é órfã, nem filha de pais separados. Nunca apanhou. Estudou em escola de freira. Nunca foi reprovada. Nunca foi para a aula sem uniforme. Nunca saiu de sala sem pedir autorização ao professor. Nunca foi irregular na faculdade. Não precisou fazer cursinho pré-vestibular. Nunca fugiu de casa. Nunca entrou em boate com documento falsificado. Nunca viola regras. Nunca traiu ninguém. Nunca se atrasa. Nunca falta aos seus compromissos. Nunca entrega depois do prazo. Nunca se esquece do aniversário de ninguém. Nunca esteve acima do peso. Não tem tatuagens, piercing nem furos a mais na orelha. Nunca fumou. Nunca usou drogas. Nunca vai ao banheiro quando está no cinema, para não incomodar os outros. Acredita em Deus. Só pede favores em último caso. Nunca furou fila. Arruma sua cama, lava seu prato e suas roupas íntimas. Faz a própria unha e arruma o próprio cabelo. Não dá opinião sem ser solicitada. Sempre cumpre prazos estabelecidos. Sempre consegue estar disponível quando quer está disponível. Responde a todos os e-mails, mensagens e afins. Em suma, uma perfeita caricatura do que mais se aproxima de uma pessoa equilibrada. Não passam, no entanto, de meros artifícios moldados meticulosamente ao longo dos anos. Tanta retidão camuflam uma bomba prestes a explodir a qualquer momento. Nível de inteligência emocional? Zero porcento. Cria situações. Se arruina em problemas imaginários. Chora. Morre cinco anos em apenas um dia de sofrimento numa realidade inventada. Invariavelmente acha que não vai dar conta. Transborda loucura e insegurança e afasta de si pessoas atraídas pela falsa identidade fofa e certinha. Nunca, em vinte e seis anos, sabotou ninnguém. Em compensação, sabota a si mesmo a cada novo dia.