segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Quando é difícil


O mundo não parou de girar porque você não me quis mais. E acho bom mesmo que seja assim. Numa noite você me deu um pé na bunda e no dia seguinte estava tudo normal. A Lucinéia estava lá vendendo seu pão, o Waguinho lavando seus carros, os aposentados jogando buraco no bar do Zezé, a Dora fazendo verdadeiros milagres capilares nas cabeças femininas. Tudo igual. Como se nada tivesse acontecido. E, de fato, nada aconteceu. Ao menos, nada que merecesse uma atenção especial do mundo. Ainda bem. Acho uma delícia que minha fossa seja irrelevante. Deus me livre de ver o fluxo das coisas se alterando por conta das minhas mazelas sentimentais. Já pensou? Os estabelecimentos comerciais fechados, as avenidas desertas, as escolas paralisadas, as emissoras de rádio e tevê fora do ar, a internet sem atualizações. Tudo para que todo mundo pudesse ficar em casa recolhido, chorando comigo a minha dor. Me arrepio só de pensar. Eu morreria de depressão profunda.
Quero mais é acordar de manhã e fazer tudo o que eu sempre fiz. Mesmo que eu demore meia hora para conseguir levantar, tamanho é o peso da dor que eu carrego. Porque fazer o que eu sempre fiz, não é difícil. Não é difícil fazer quarenta minutos de Power Jump, seguidos de meia hora de ginástica localizada. Não é difícil fazer depilação, unha e cabelo e ter que passar a noite toda dando fora em cara chato. Não é difícil sair de casa e cruzar a cidade para ir dançar com as meninas. Não é difícil passar o dia escrevendo releases sobre assuntos tão agradáveis quanto conversa de bêbado. Não é difícil sair para fazer compras com a minha mãe. Não é difícil atender duzentas ligações por dia de chefe, cliente, telemarketing, amigos, conhecidos e enganos. Não é difícil arrumar meu guardarroupas, e jogar tralhas que me lembram você no lixo. Não é difícil passar a tarde brincado com meu primo Dudu. Não é difícil sentar com meus pais para assistir a novela das oito. Não é difícil ficar horas tentando acertar a mão naquela receita de empadão (tá bom, vai, é um pouco difícil, sim!). Não é difícil me desdobrar para conseguir comparecer a todos os meus compromissos. Nada disso é difícil, porque tudo isso é o que eu sempre fiz. E o que eu sempre fiz sou eu. E não você.
Difícil é quando eu acordo quatro minutos antes do meu relógio despertar e passo aqueles longos quatro minutos tentando pela milionésima vez descobrir em que momento tudo se perdeu. Difícil é quando eu paro num sinal de quatro tempos e me atravessa na minha frente um infeliz usando uma camisa igual a que eu te dei. Difícil é quando eu entro sozinha no elevador e está tocando a nossa música. Difícil é quando eu chego mais cedo em casa e ainda não tem ninguém para fazer barulho. Difícil é quando, no auge do meu trabalho, alguém me liga para me contar que te viu. Difícil é quando eu não tenho nada para fazer na sexta à noite. Justo na sexta. Lembra das nossas sextas? Difícil é quando a fila do banco está quilométrica e justo nesse dia ninguém rende assunto comigo. Difícil é quando eu estou tomando banho e me vem aquele cheiro. Difícil são esses momentos que, por alguma falha no sistema, a vida se esquece de ocupar. Difícil são esses vazios. E esses vazios são você. Não sou eu.