domingo, 28 de fevereiro de 2010


Querido Fevereiro de 2010,

nosso relacionamento foi muito intenso. Mas isso é quase uma redundância. O relacionamento quase sempre é intenso com os do seu tipo. Sempre rápidos e festeiros. Sempre achei, aliás, que talvez vocês nem precisassem existir. Poderiam jogar uns dias a mais para janeiro, outros para março e deixar o carnaval no limbo dos calendários. Sério. Eu sempre pensei assim. É claro que esse ano eu quis com muito mais raça que em todos os outros vinte cinco que você não tivesse existido. Brincadeira, hein? Muita confusão para um mísero mesinho de 28 dias. Tá pensando que é o quê? Um dezembro? Com 31 dias, festas, férias e décimo terceiro? Se liga! Você é a escória das datas e não venha jogar sua insatisfação por ser tão pequeno e relegado pra cima de mim, que eu sou setembrina e não tenho nada a ver com isso, ok? Não precisava ter deixado meu pai no hospital por duas semanas. Também não precisava ter tirado meu músico favorito, da minha banda favorita. E ainda tentou camuflar a notícia com os confetes do carnaval. É muita cara de pau. Até parece que eu não ia perceber. Também não precisava levar como um furacão o castelo de areia que eu montei com cuidado e dedicação durante todo o mês de janeiro. Olha só: marços, julhos, agostos já haviam me dito que ninguém é de ninguém. Que a vida é cruel. Que um dia uma pessoa pode me jurar amor e no outro nem olhar na minha cara. Que eu não posso demonstrar meus sentimentos sob pena de ser abandonada. Não precisava você ter esfregado isso na minha cara de novo. Foi injusto e cruel. Justo num dos dias em que meu pai estava hospitalizado, justo no dia que o meu baterista saiu da minha banda. Você e esse seu dia 12, hein? Dão a volta em muito vilãozinho de novela. Que duplinha infernal. Não precisa dizer que você queria me derrubar. Eu saquei sozinha. Você tentou de tudo. Até dar uma avacalhada básica na minha vida profissional você conseguiu. Não teria como eu não perceber a armação. Mas eu tenho uma triste notícia para te dar: eu fui muito feliz enquanto estivemos juntos. Sério! Lembra quando no fatídico dia 12 eu vi pessoas me estendendo a mão e dizendo que me amam? Eu fui feliz ali. Lembra quando o Dudu me deu um dos seus dinossaurinhos de presente? Fui feliz também! E fui feliz em Búzios, em Cabo Frio, em Arraial do Cabo, em Petrópolis. Fui feliz fazendo um book dentro de um provador da Renner, com as amigas. Fui feliz quando meu pai saiu do hospital. Fui feliz quando cheguei de viagem e minha mãe me abraçou dizendo que estava morrendo de saudades. Fui feliz quando deixei minhas amigas chorando (literalmente) de rir. Percebeu? Eu posso chorar, eu posso fazer meus dramas, eu posso praguejar contra o mundo. Mas pra me derrubar é preciso muito mais. Sabe o que é irônico? Você quis acabar comigo mas quem acabou foi você. Eu continuo e você está liquidado. Não volta nunca mais. Vou nem ficar chutando cachorro morto, tenho dó. Saia do meu pé, pedrinha no meu sapato. Porque agora eu vou descalça.

Att.


Fernanda Pinho