segunda-feira, 29 de março de 2010

Vergonha

Centro de Belo Horizonte. Esquina da Avenida Augusto de Lima com Rua Espírito Santo. 29 de março de 2010. Cerca de 19h50. Eu, caminhando. Apressada, como sempre. Remoendo os problemas que crio, como sempre. Ruminando os problemas que criam para mim, como sempre.


Olho para o lado, como quase nunca. Vejo um homem deitado sobre sacos de lixo, como se fosse uma cama king size. E se fartando do conteúdo dos sacos, como se fosse um banquete. Engoli o choro de vergonha pelas minhas lamentações. Apertei o passo, como sempre.


O bicho

(Manuel Bandeira)

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.