quinta-feira, 1 de abril de 2010

Contos da Violeta

IV - Surpresa



A campanhia tocou e ela achou estranho, pois não esperava ninguém àquela hora. Aliás, fazia tempo que não esperava ninguém hora nenhuma. Olhou pela janela que dava para a rua e deixou a cabeça tombar contra o vidro. Caixas e mais caixas a esperavam do lado de fora. Algumas pequenas, outras grandes. Algumas com laço de fita, outras com flores. Algumas amarelas, outras vermelhas. Mas todas, todas lindas. Como sempre costumavam ser. Mas não se enganaria dessa vez. Ignorou o chamado e voltou para a cama. Só não encontrou o sono, que parece ter escapado de lá quando se levantou. Não queria pensar, mas era inevitável. Quantas e quantas vezes foi seduzida por aquelas embalagens? Quantas e quantas vezes desprendeu esforços abrindo uma por uma para, ao fim da jornada, descobrir que não havia recebido nada? Ou, no máximo, alguma coisinha minúscula que não necessitava tanto embrulho mas que ela, por consideração, colocava dentro de seu apartamento e se apegava como se fosse coisa importante. A campanhia soou de novo. Mas ela não iria ceder. Se tocasse uma terceira vez, pensaria na possibilidade. E tocou. Uma terceira e uma quarta. Levantou de súbito e desceu as escadas arquitetando como daria um fim naquelas caixas vazias. Não se machucaria dessa vez. A experiência devia servir de alguma coisa, afinal. Parou. Precisava de ferramentas para executar o plano. Voltou ao apartamento e buscou uma caixa de fósforos e um litro de álcool. Desceu em velocidade dobrada, pulando os degraus de dois em dois. Parou decidida entre as caixas e tentou afastá-las com as mãos, para que o fogo não atingisse o prédio. Para sua surpresa, não conseguiu mover a primeira caixa. Nem a segunda, nem a terceira. Nem qualquer outra. Estavam pesadas. Provavelmente cheias. Cheias. Repetiu para si mesma. Tudo bem. O fato de estarem cheias não significava necessariamente que elas deveria ser abertas. Mas por que não abri-las? Não havia motivo para evitar? Havia? Então abriu. Uma a uma. E dentro daquelas caixas, pequenas, grandes, com laços, com flores, vermelhas e amarelas, estava tudo aquilo com o que ela sonhou durante anos. Era preciso, então, levar tudo aquilo para dentro do apartamento. Mas como fazer? Como não quebrar nada no caminho? Será que tudo aquilo caberia dentro do minúsculo apartamento? Não sabia. Estava acostumada a voltar de mãos abanando ou com uma mixaria qualquer. Não sabia como proceder no caso de receber tudo. Não estava preparada. Subiu as escadas devagar e olhou tudo aquilo pela janela. Receberia tudo. Mas aos poucos. Entrar com tudo era demais para seu apartamento. Ligou para a amiga e pediu um conselho. A outra riu. Seria até fácil ajudar, caso Violeta realmente estivesse falando sobre caixas e apartamentos.