quinta-feira, 15 de abril de 2010

Contos da Violeta

V - Como um homem faria


A linha entre a coragem e a covardia era tênue. Disso Violeta sabia bem, pois vivia tentando se equilibrar entre os atos que depois contaria aos amigos cheia de orgulho e os outros, não tão nobres, que despejaria em lágrimas no seu travesseiro. Sabia também que não se tratava apenas de uma questão de equilíbrio mas também, e principalmente, de ponto de vista. O verbo do covarde é desistir. E Violeta não desistia nunca. Não que fosse corajosa. É que era indecisa. E desistir implicava em tomar alguma decisão. Muito mais fácil deixar tudo como estava e ainda levar a boa fama de quem não desiste nunca. Enchia a boca para falar sobre si mesmo como aquela que aguenta seus relacionamentos medíocres até as últimas consequências. Mas, no fundo, sempre soube que não desistia porque, para abrir mão de tudo, aí sim, era necessário uma boa dose de coragem. Coisa que ela não tinha. O que ela mais tinha, aliás, era medo. Medo de não ter nada daquilo de novo (mesmo que aquilo fosse muito pouco), medo de não ter outra chance. Não queria, então, levar para o resto de sua vida a culpa por não ter aguentado até o fim. O fim que ela, às vezes, almejava tanto, mas não tinha coragem de inaugurar. Então lançava mão do truqe mais velho que andar pra frente: jogar a decisão para cima do outro. Sabia ser irritante, tinha talento como ninguém para tirar o outro do sério, sabia fazer de suas palavras uma arma letal. Torturava até ouvir o derradeiro "adeus". Sua carta de alforria. Ela fez o que pode, mas o outro - que covarde! - desistiu. Paciência! E corria livre, feliz e sem culpa.