domingo, 2 de maio de 2010

Contos da Violeta

VI - Contando os dias


- Mas, afinal, o que aconteceu entre você e Leônidas? Até hoje não entendi.

Ariadne mandou a pergunta, despretensiosa, à queima roupa. Violeta sabia que era despretensiosa, pois conhecia a amiga e seu jeito meio lunar. O que a incomodou, então, não foi a intenção da pergunta (que nada mais era do que lançar um novo assunto na roda) mas, sim, a própria pergunta.

- Ora, Ariadne, se eu tivesse entendido o que aconteceu entre Leônidas e eu, teria te contado. Acontece que eu mesma ainda tento entender.

Foi o que Violeta pensou, mas não disse. Dois meses e dezenove dias. Já haviam passado dois meses e dezenove dias. Talvez fosse a hora de, enfim, quebrar o silêncio e reconstituir os fatos verbalmente. Quem sabe assim não encontraria uma resposta? Relatou então as declarações, as promessas, os planos, o sumiço, o questionamento e - a voz embargou, o queixo tremeu, o olho molhou - as palavras que lhe foram escritas: "Violeta, você não é boa o bastante para mim. Te desejo tudo de bom. Leônidas". Um punhal nas costas não teria lhe doído tanto. Provavelmente, dois meses e dezenove dias fossem suficientes para a cicatrização de uma apunhalada. Mas não de um "você-não-é-boa-o-bastante-para-mim".

- Que bom que você superou rápido. Te achei ótima nos dias seguintes. Ou você disfarça bem?

Ah, se Ariadne soubesse que ela ainda trancava o choro e que, nos tais dias seguintes, onde tudo parecia estar bem, Violeta ansiava pela hora do banho. Momento em que ficava sozinha com seu punhal e tinha toda a liberdade de chorar, sem que ninguém a acusasse de uma boba-idiota-que-chora-por-quem-não-merece. Ela era mesmo uma boba-idiota-que-chora-por-quem-não-merece, mas ninguém precisava saber. Então continuava demonstrando estar ótima, tentando entender, chorando no banho e contando os dias. Agora, dois meses e vinte.