terça-feira, 25 de maio de 2010

Eu não sou independente, e daí?



Não raramente vejo uma neofeminista comemorar que, em breve, não precisaremos dos homens nem para nos reproduzir. O que acontece é que não vejo nem um pouco de verdade nessa suposta satisfação. Pra mim isso é coisa de quem se deu mal a vida inteira e, agora, quer provar para si mesma e principalmente pro pai, pra mãe, pras amigas e para os ex que vive, sim, muito bem, sozinha. E até vive, não sei se bem, mas vive. São mulheres de uma geração que cresceu lutando pelas famigeradas igualdades entre gêneros. Mulheres que aprenderam a ser independentes. Mulheres que trabalham 14 horas por dia, e ainda arrumam tempo para a ioga, para fazer compras, para o happy hour com as amigas, para fazer compras, para a aula de francês, para fazer compras, para passear com o afilhado, para fazer compras, para viajar, para fazer compras. Numa tentativa sem fim de preencher todos os espaços deixados pela ausência de algum tipo amor. É o tipo de mulher que vai ao supermercado trajando um terninho Chanel adquirido na última viagem à Europa, montadas num sapato Prada e sendo carregadas por uma bolsa Louis Vuitton, e se dirigem, automaticamente, à seção de congelados. Enquanto vibra internamente ao saber que já estão vendendo couve cortadinha em saquinhos zip-lock, ela observa uma outra mulher, mais ou menos da sua idade, enchendo o carrinho de iogurtes. Muitos iogurtes, nenhum light. Aliás, não tem nada diet nem light no carrinho da outra. Ao contrário do seu. Ela está grávida. Não deve demorar muito a nascer. Ainda assim ela consegue se abaixar e pegar o filho, de uns três anos, e colocá-lo dentro do carrinho, numa tentativa de fazê-lo parar de chorar. Seu vestidão de malha não é nada sexy, mas a deixa linda. Do alto de seu Prada, a mulher independente sente uma pontada de inveja. Nesse dia, decide sair da dieta e levar um pote de sorvete e uma caixa de bombom. Mora sozinha mesmo. Não terá que dividir com ninguém.

Ela sai com as amigas, conta piadas feministas, mete o pau nos homens, mas acaba se interessando por um deles. Conversa vai, conversa vem, ele a chama de “docinho”, ela acha brega e cai fora, deixando um falso número de telefone. Chega em casa, a lâmpada da sala está queimada. Vai ter que chamar o zelador pela terceira vez na semana. Chora. Elas são assim, exatamente tudo aquilo que eu não quero ser.

Feministas, perdão. Mas vim ao mundo para parir. E ao meu modo, não ao modo da mulher independente. Não pretendo fazer inseminação artificial ou dar uma trepada sem compromisso para ter filho sozinha e deixá-lo ser criado por babá. Quero um homem, do meu lado, que chore quando ver o primeiro ultrassom. Quero levar meu filho na escola e segurar na sua mãozinha quando escrever as primeiras palavras. Quero participar das reuniões de pais e adquirir olheiras de noites mal dormidas. Não consigo imaginar felicidade dentro de um apartamento superbem localizado, superbem decorado, e vazio. A felicidade pra mim está na casa com criança, cachorro e marido fazendo bagunça. Gosto de imaginar marca de mãozinha na parede e toalha molhada jogada na cama. Loucura? Chamem do quiser. Eu chamo de necessidade. Necessidade de afeto, de segurança, de amor. Eu sou mulher, me sinto frágil, tenho medo da solidão. Mas sou forte o bastante para bancar as minhas necessidades. Fraqueza é dar uma de durona e chorar sozinha à noite.

 
 
p.s.: Texto escrito há milênios. Mas estou sem tempo de escrever algo novo porque...bom, porque tenho trabalhado 14 horas por dia.