sexta-feira, 11 de junho de 2010

Contos da Violeta

VII - O cabelo



Enquanto tentava escolher entre o amarelo cintilante e o azul fosco, Violeta agradecia mentalmente por agora os esmaltes um pouco mais exóticos estarem na moda. Sempre gostou de esmaltes que não fossem vermelho, rosa e branco e pouco se importava se, aos olhos dos outros, seu gosto parecia exótico. Mas o fato de estarem na moda aumentava a oferta e, assim, Violeta podia ter aquela pequena alegria da vasta gama de opções de esmaltes. Não tinha muitas opções de quase nada na vida. Era bom que tivesse, ao menos, opções de esmaltes. Embora sempre ficasse em dúvida. Como estava, entre o amarelo cintilante e o azul fosco. Tentava decidir qual dos dois combinaria melhor com a roupa escolhida para o fim de semana, quando foi surpreendida por uma voz irritantemente familiar.


- Oi Vi!

Claro que era ele. Quem mais a chamaria de Vi? Ela sorriu e nada sentiu, além de uma pontada de implicância por ele se achar íntimo o bastante para chamá-la de Vi. Preferiu não dizer nada. Se verbalizasse sua implicância, ele certamente acharia que era recalque. Essa maldita e patética mania dos homens de se acharem inesquecíveis. O diálogo automático, cheio de "quanto tempo" e "o quê você anda arrumando" fluiu com a fluidez que fluem todas as coisas automáticas. Melhor assim. Sem precisar elaborar respostas, Violeta mantinha o foco do seu pensamento na questão dos esmaltes: amarelo ou azul?

- Como?
- Nada não, pensei alto.

Não era engraçado dizer que pensou alto. Mas Charlie sempre fez questão de sorri exacerbadamente na presença de Violeta. O riso veio acompanhado de um meneio de cabeça e, então, a revelação! Pela primeira vez nos últimos quinze minutos, Violeta se desligou por completo dos esmaltes e encarou, estupefata, a novidade: Charlie agora exibia um rabinho no cabelo.

Primeiro era preciso lidar com a vergonha. Viu os dois por um filete de espelho que revestia uma pilastra e, buscou, em algum lugar da memória um motivo que fosse que a lembrasse de por que ela havia amado aquele homem. Em vão. Depois que tudo passou, Violeta nunca foi capaz de entender como havia gostado tanto de Charlie, sua risada exacerbada, sua pochete e sua mania de filosofar sobre tudo. Agora, que era Charlie, sua risada exacerbada, sua pochete, sua mania de filosofar sobre tudo e seu rabinho, entendia menos ainda.

Podia simplesmente ignorar o fato. Que diferença aquele aparato capilar faria em seu vida? Nenhuma! Mas Violeta não conseguia ser omissa. Não poderia compactuar com uma coisa daquelas. Não poderia permitir que um ser humano vagasse por aí com um cabelo que não era exótico, como os esmaltes coloridos, mas brega como...uma pochete! Tá certo que, diante de todo o mal que Charlie fez a ela, ele merecia mesmo passar o fim dos seus dias sozinho e sendo ridicularizado pelas mulheres (que mulher em sã consciência se sentiria atraída por aquilo?). Mas seria muita maldade. E Violeta podia até ser rancorosa, mas maldosa, nunca! Não se controlou e soltou como quem não quer nada: corta esse cabelo. Violeta nunca teve uma intenção tão boa em relação a Charlie, como naquele momento. Só que ele não entendeu. Não riu exacerbadamente. Riu amarelo. Da cor do esmalte que Violeta acabou levando.