quarta-feira, 16 de junho de 2010

A dimensão do problema

Quando eu era criança e via alguém chorando, eu sempre pensava que uma pessoa da família daquele alguém havia morrido. Já entre a adolescência e o início da vida adulta, quando eu via alguém chorando, podia ter certeza de que aquela pessoa havia acabado de terminar um relacionamento. Hoje em dia, quando eu vejo alguém chorando, penso que essa pessoa acabou de descobrir que está com uma doença grave.

Naturalmente, essas minhas deduções não tem sentido algum, além do fato de estarem intimamente ligadas aos meus medos em cada fase da minha vida. E o medo é essa coisa desagradável, que faz a gente sofrer e congela nossa vida.

Um dos grandes arrependimentos da minha vida - talvez o único - foi eu ter me entregado a um sofrimento que se arrastou por um ano meio quando terminei meu primeiro relacionamento. Embora eu disfarçasse até bem (como sei fazer ainda hoje), eu sofri muito, muito mesmo. Do tipo: passar finais e finais de semana em casa, chorar várias vezes ao dia, tomar remédio para dormir e fazer terapia. Mas é bem fácil entender porque eu me entreguei daquele jeito. Até então, eu não tinha ideia do que era problema. O máximo do sofrimento que eu passava na minha vida era ter que estudar para provas que eu considerava difíceis.

Depois disso, muitas coisas aconteceram na minha vida. Sobretudo no meu núcleo familiar que, de uns três anos para cá, foi abalado por uma série de problemas de várias ordens. Vendo o que nos acontece agora, eu percebo o quanto eu tinha tudo para ser a pessoa mais feliz do mundo naquela época em que eu precisava de remédio para dormir. Mas eu não sabia. Eu não sabia porque ninguém me alertou para o fato de eu estar me entregando para uma bobagem.

Hoje eu sou feliz. Nunca tivemos tantos problemas como temos agora. Mas, agora, eu sou lúcida. Agora eu sei que, por mais que eu tenha que chorar escondida pelo menos uma vez por dia, a minha vida é o que está acontecendo nesse momento. Não o que ainda está por vir. Faço tudo o que posso fazer por mim e me agrado muito. Troquei remédios e terapia pelas minhas amizades sinceras, minhas festas, minhas músicas, meus livros, meus textos. Bem melhor assim. E quando eu vejo alguém abatido por uma bobagem (como eu fiquei naquele um ano e meio) eu fico triste. Principalmente se é alguém de quem gosto muito. Pois tenho medo de que, diante de um problema de verdade, a pessoa não aguente a pressão.