sexta-feira, 25 de junho de 2010

Programa de índio

Realiza:
Você está feliz (ou não), após um dia árduo de trabalho (ou não), sentando num mesa de bar acompanhado de amigos (ou não), tomando uma cervejinha (ou não) - porque nada disso é relevante para a cena que vamos construir. A única coisa que importa é que em determinado momento, um índio, vindo sabe-se lá de onde, adentra o bar, exibindo um ostensivo cocar da última moda e uma bela pintura feita com urucum e genipapo pelo corpo. Você e todos os outros que estão no bar acham tudo muito normal, afinal, a todo momento, você encontra com índios no bar, no shopping, no Mineirão, na igreja, na academia. Enfim, eles estão por toda parte. Mas a cena sai da normalidade quando o índio solicita o cardápio, dá uma rápida conferida, pergunta se aceitam escambo e pede para o garçom:
- Uma dose de Jose Cuervo, por favor.
Alarmado, você pega seu celular e corre para o banheiro. Afinal, você vive num mundo perfeito, sem violência, sem tráfico de drogas, sem caras-pálidas dirigindo embreagados. Você não pode, então, permitir que a vida saia de seu fluxo perfeito. É preciso avisar à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal que existe um índio tentando comprar bebida alcoólica!!!! Seria o apocalipse? 2012 chegou mais cedo? Seja o que for, você tenta impedir. Mas o 181 só dá ocupado. Provavelmente, em outros cantos da cidade índios estão sendo pegos com o tembetá na botija. Você volta para a mesa desolado por não ter conseguido fazer sua parte por um mundo melhor. Sua ida ao boteco até perde a graça - não dá para ser feliz vendo um índio tomando umas - e você decide voltar para a casa. Mal consegue dormir, prevendo a tragédia iminente. No dia seguinte, na primeira página do jornal, não dá outra:

Índio embreagado provoca engavetamento de canoas, incendeia própria oca e dispara flecha perdida contra o cacique.