terça-feira, 27 de julho de 2010

Cada um no seu quadrado

Tem uma coisa que me irrita muito em certas correntes evangélicas, que é o fato de os seguidores dessas correntes insistirem em te converter para a religião deles. Entendam, meu problema não é com o fato deles serem evangélicos. Eu respeito as pessoas independente do que elas acreditam e quero que me respeitem também. Por isso acho chato, desrespeitoso e agressivo quando alguém bate na minha casa num domingo de manhã, dizendo que veio trazer Deus para minha vida. Ah, que pretensão! Eu tenho a minha crença, a minha espiritualidade e não tento induzir as coisas nas quais acredito a ninguém, porque isso é meu, é extremamente íntimo e particular. E, sinceramente, eu não me importo se as pessoas que fazem parte da minha vida acreditam em Deus, em Ganesha ou em Alá. Isso é escolha e tal como todas as escolhas que fazemos na vida é subjetivo. O que eu escolho é para mim. Não para minha família e meus amigos. O que eles escolhem também é deles e eu não tenho nada com isso. Imagine como o mundo seria perfeito se todo mundo respeitasse as escolhas alheias em vez de tentar enfiar goela abaixo dos outros aquelas condutas que julgam mais adequeadas, só porque escolheram para si próprio? Simplesmente não haveria mais intolerância e isso evitaria desde guerras mundiais a pequenas guerras diárias. Como não sou nada pretensiosa, quero falar apenas de uma pequena guerra diária.

Vamos falar sobre X. Ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida e só não menciono seu nome pois não a comuniquei que escreveria sobre ela. E uma das escolhas que ela fez na vida é a escolha pela discrição. Além de discreta ela também é uma das pessoas mais bonitas que conheço. Num primeiro impacto é isso que chama a atenção. Com a convivência é fácil descobrir outros predicados: inteligente, engraçada, competente, responsável e tantos outros. Só que algo tem angustiado X. Ela tem sido deliberadamente discriminada de um determinado grupo, com o qual precisa conviver, porque não consome bebida alcoólica. Ela não recrimina quem bebe, simplesmente optou por não beber, simples assim. E isso a tornou, aos olhos desse grupinho, um ET. Uma pessoa que não merece ser tratada com consideração, respeito, atenção. A mulher invisível. Não fiquei nem indignada com essa história. Fiquei foi triste. É triste pensar que as mesmas pessoas que entram em comunidades do Orkut contra o racismo, que vão na Parada Gay, e saem por aí cuspindo comentários antipreconceitos, ignoram a presença de uma pessoa porque ela consegue ser feliz estando sóbria.

Não existe tolerância seletiva. Ou você é tolerante ou você não é. Se você recrimina alguém porque essa pessoa não bebe, ou porque essa pessoa não tem carro, ou porque essa pessoa frequenta determinada igreja, ou porque a pessoa não tem o corpo dentro de um "padrão" você é tão merda quanto o merda de um homofóbico ou o merda de um racista.

p.s.: E que fique claro: isso não é um texto esculachando quem bebe (caso fosse eu estaria meu autoesculachando). É um texto sobre quem não respeita as escolhas dos outros. Seja elas quais forem.