segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Não ser: eis a questão

Estava decidida. Na terça-feira se matricularia na aula de teatro. Na terça, e não na segunda. As pessoas nunca fazem o que prometem começar na segunda. Não que tivesse despertado em si um interesse súbito pelas artes cênicas. Nem tinha pretensões artísticas. De todo modo, era preciso aprender a atuar. Questão de sobrevivência.

Tomou gosto pelas aulas e, curiosamente, descobriu em sim um certo talento para a coisa. Não se intimidava perante os colegas e tinha facilidade para decorar os textos. Gostava especialmente dos de Shakespeare. No palco, olhando para a plateia vazia, era fácil. Na vida é que estava o grande desafio.
Começou treinando no espelho. “Como você está linda hoje. Adorei sua saia!”, dizia, olhando para seu próprio reflexo, com um risinho irônico.

Quando achou que já estava preparada, começou a praticar com pequenas mentiras do dia-a-dia. Encontrou-se com a moça do almoxarifado ainda no elevador. Em outros tempos, teria saltado no andar seguinte. Aquele perfume de gardênia lhe atacava a enxaqueca. Mas era uma nova mulher, afinal. “Seu perfume é ótimo. Depois me passa o nome”, disse, simpaticamente.

Já na sua repartição, foi chamada à sala do chefe, que, cheio de dedos, iniciou a velha conversa. Disse que precisava reduzir custos, uma ou duas pessoas seriam demitidas. “Mas não você”, ele se apressou em esclarecer. E ela sabia. Era competente demais para ser limada por uma política de redução de custos. O que o chefe queria dizer é que suas atribuições aumentariam, como já havia acontecido anteriormente. “Mas o salário não”, se apressou em esclarecer, novamente. E então, o chefe respirou fundo e esperou que ela questionasse, pedisse um relatório das finanças da empresa, reivindicasse seu salário e o cargo dos colegas. Ela sempre fazia isso. Não dessa vez. “Ok, conte comigo”, contentou-se em dizer para, em seguida, voltar para sua mesa.

À noite, esperou pelo namorado que, como sempre, estava atrasado. Deve ter andando uns cinquenta quilômetros circulando pelo apartamento. Ligou para a melhor amiga. Arrancou o esmalte com os dentes. Comeu uma lata de leite condensado inteira. Duas horas depois, ele chegou. “Desculpe, amor, me atrasei por causa do trânsito...”. “Poxa, nem notei que estava atrasado. Cheguei agora a pouco também. Tinha ido fazer umas comprinhas. Ainda bem que você não chegou antes. Teríamos nos desencontrado”. O namorado a olhou perplexo. Todos, aliás, estavam perplexos. Perplexos, porém felizes com aquela nova mulher. Ela, finalmente, havia deixado de ser o que realmente era para se tornar aquilo que os outros esperavam que ela fosse: uma falsa de mão cheia.