segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pesadelo azul

Aconteceu que eu tive que comprar um presente de aniversário para um amigo cruzeirense e aconteceu também de eu não ter nenhuma ideia genial (roupas todo mundo já ia dar, cosméticos a noiva dele vende, livros e DVD's eu não sabia quais ele não tinha) e ir parar na loja do Cruzeiro.

Antes de dar prosseguimento é preciso que se entenda uma coisa. Sou atleticana fanática, minha família - há gerações - toda é. Saí da maternidade enrolada no manto alvinegro. Então, entrar na loja do Cruzeiro, e ainda por cima com a ideia de propiciar algum lucro a esse time, foi algo que exigiu de mim uma grande preparação psicológica.

Mas o importante era deixar meu amigo feliz, afinal. Larguei mão dessa bobagem, entrei no clima de fair play e fui. Claro, não foi assim tão simples. Eu iria entrar naquela loja, comprar alguma coisa, mas querer que eu passasse algum tempo da minha vida lá dentro já seria demais. Mesmo porque a loja é toda envidraçada e fica no centro do meu bairro - e ser vista por algum conhecido estava fora dos meus planos.

Então, tracei meu plano de guerra. Escolhi os produtos da vitrine. Entrei e fui rápida e rasteira.
- Moço, quero isso e aquilo, pra presente. Vou pagar no dinheiro.
Enquanto pagava, porém, foi me dando subindo um calor, me dando um formigamento na língua. Não aguentei. Tive que perguntar.
- Moço, o quê é aquilo lá?
Eu disse apontando para um dos produstos da vitrine. Já sabia a resposta, mas queria ouví-lo dizer.
- É uma saboneteira.
- Ui, que frescura, hein?*
Respondi com um risinho sarcástico.

Quando cheguei na porta da loja, não aguentei de novo, virei de costas e falei:
- É, eu sou atleticana.

Me senti honrando meu time, até me lembrar de um detalhe: eu estava segurando uma sacola do Cruzeiro e deveria andar cerca de seis quarteirões, em plena luz do dia, carregando aquilo diante dos olhos de quem quisesse ver. Não devia pesar nem dois quilos o embrulho, mas eu parecia estar carregando duzentas toneladas. E tive aquela falsa impressão que a gente tem quando está fazendo algo errado de que todos me apontavam na rua.

Ah, e detalhe, entre a loja do Cruzeiro e a minha casa existe a gloriosa Loja do Galo. Naturalmente, quando passei na frente da loja do Galo, atravessei a rua, pois não cometeria a heresia de esfregar aquela sacola azul na cara do Galo Doido.

Resumo da história: o amigo ficou feliz pelo presente e agradecido pela minha coragem. E eu fui agraciada pelas forças do universo que, com orgulho da minha humildade e respeito ao mau gosto alheio, me retribuiu com a inesperada vitóra do Galo em cima do Cruzeiro na tarde de ontem. Meu pesadelo azul, virou um sonho azul. Com aquela velocidade com que os sonhos mudam os contextos.
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* Fiz a piadinha porque não resisti. Mas acho bobo tentar ofender o time alheio com xingamentos do tipo gay, bicha, viado. Mesmo porque eu não acho que ser gay é ofensa.