quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A culpa

Sou uma pessoa cheia de culpa. Do tipo que no dia em que fui dormir sem escovar os dentes, sonhei a noite toda que estava ficando banguela. Me sinto culpada se não posso dar a atenção que uma pessoa merece, me sinto culpada se não respondo a um e-mail, me sinto culpada se fico muito tempo à toa, me sinto culpada se falto da academia a semana toda. Me sinto culpada e, como toda culpada merece, me aplico uma punição que, normalmente, vem na forma de pensamentos torturantes para remoer durante dias. Por outro lado, raramente - para não dizer nunca, porque nunca é muito forte - culpo os outros. Essa, aliás, é uma característica minha e da minha irmã que crescemos vendo nosso pai tentando arrumar um culpado para tudo. Para uma caneta que cai na chão ele se empenha em achar o culpado que, claro, nunca é ele. O que eu e minha irmã percebemos logo - e que meu pai não percebeu até hoje - é que nem sempre existe um culpado. Não somos personagens de uma novela de quinta onde existe um vilão articulando todos os nossos problemas. Tem coisas que simplesmente acontecem. Simples assim. Por ter essa convicção, não vou deixar que coloquem na minha conta certas culpas que não me cabem. A mim, já basta as culpas que eu mesma me arrumo. Eu quase me culpei. Eu quase me arrependi. Eu quase condenei meu jeito exagerado e intenso por ter dado tudo errado de novo. Mas foi quase. Porque aí eu me lembrei de um detalhe importante: quando a gente gosta de uma pessoa de verdade e acha que por ela vale a pena, relevamos todo e qualquer exagero (e o meu nem foi tão grave assim). Então, meu caro, essa culpa, eu dispenso. Não fui em quem escrevi nossa história errada. Você é que não sabe ler (e isso não é culpa de ninguém).