domingo, 3 de junho de 2012

Ser estrangeira

Eu que sou filha, irmã, amiga, jornalista, libriana, atleticana, mineira, tenho mais uma pra minha lista. Agora sou estrangeira. Amanhã faz dois meses desde que cheguei e já foi o suficiente para eu criar alguns novos conceitos, enxergar novas percepções, descobrir novos sentimentos. Muda nosso ponto de vista padrão, muda tudo.

Estou, por exemplo, mais tolerante. Descobri em mim uma incrível capacidade de autocontrole. A Fernanda impulsiva saiu de férias devido à minha falta de léxico para explodir quando me sinto irritada. Ainda não aprendi a brigar em espanhol, o que faz de mim uma pessoa estranhamente doce e serena.

Essa falta de intimidade com o idioma faz de mim também uma pessoa mais atenta. Nunca me disperso quando alguém fala comigo. Vou me familiarizando com os sons, registrando novas palavras. A atenção, aliás, é minha companhia mais constante. Nada me passa despercebido. Tudo é computado. Ando no supermercado admirando as embalagens, dou ouvidos para conversa de estranhos, leio (em voz alta) todas as placas nas ruas. Me dedico a entender as ruas, o trânsito. Talvez seja um instinto de autoproteção, evitando que eu me perca numa cidade que não é a minha. Na minha cidade nunca me preocupei com isso. O que justifica o estranho fato de em dois meses de Santiago eu ter desenvolvido um senso de direção muito mais apurado que em 28 anos de Belo Horizonte.

Tudo está mais apurado. Dos sentidos aos sentimentos. Me descobri uma completamente apaixonada pelo Brasil. E olha que estou num lugar que muito me agrada. Mas se tem uma coisa que muda a cabeça da gente é quando o banal se torna um privilégio. Comer feijão preto ou ouvir alguém falando português ao meu lado deu pra me emocionar, olha que coisa! E quando me perguntam sobre o Brasil? Só consigo me lembrar de coisas boas e elas são tantas. Já me peguei elogiando até os planos de saúde brasileiros, pra vocês terem uma ideia.

E que não ousem falar mal do Brasil perto de mim porque se falar... bom, não vai acontecer nada por enquanto. Mas deixa só eu aprender a brigar em espanhol!




Fonte: Crônica do Dia 


P.S.: Texto publicado no Crônica do Dia, na última quinta-feira. Estou ocupada com algumas novidades, mas volto em breve com notícias inéditas.