quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Hoje estou meio Neruda, meio Martha

Não é possível quantificar o reconhecimento mas, provavelmente, Pablo Neruda é o chileno mais famoso do mundo (falo da fama boa, porque em outra instância temos o General Pinochet). E os chilenos morrem de orgulho dessa fama (a de Neruda, que fique claro). Basta observar a imensa quantidade de estabelecimentos de toda ordem que levam o nome do poeta. Sem falar de suas casas que atraem turistas de todo o mundo, o ano inteiro. Estive na casa de Isla Negra em janeiro deste ano e me apaixonei. É um mergulho na vida e nos hábitos de Neruda. Infelizmente, não se pode fotografar do lado de dentro (o que é até bom, já que não quebra o encanto de quem chega pela primeira vez). 

A casa de Santiago, La Chascona, ainda não conheço por pura falta de organização da minha parte que já cheguei na porta umas três vezes, em horários em que não estava aberta à visitação. 

A visita à casa de Isla Negra veio à tona hoje quando li, novamente e oportunamente, esse poema que NÃO É DELE. Me lembrei pois, ironicamente, talvez seja um dos textos que mais divulgam o nome de Neruda entre nós, brasileiros mas que, na verdade, foi escrito pela Martha Medeiros (que eu adoro também e que, inclusive, morou uns anos aqui em Santiago. De repente, os ares nerudianos a inspiraram a escrever esse texto). Lindo, lindo...



"Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um feito muito maior que o simples fato de respirar. Somente a ardente paciência fará com que conquistemos uma esplêndida felicidade".

Algumas fotos da casa de Isla Negra: