segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A saga das malas - Parte I




Não sei quem inventou que a palavra “mala” poderia ser usada para se referir a pessoas chatas e inconvenientes. Mas acredito que tenha sido alguém que passou por situação semelhante a que vou narrar agora.

Quando decidimos nos mudar de volta para o Brasil, a primeira coisa que fizemos foi entrar em contato com algumas transportadoras e orçar quanto ficaria levar tudo o que tínhamos até Belo Horizonte. Com a chegada dos primeiros orçamentos, desistimos. Era algo em torno de 20 mil reais e, “tudo o que tínhamos” nem era tanta coisa assim. Resolvemos então vender nossos móveis e eletrodomésticos e viajar “apenas” com nossas coisas de uso pessoal.

Depois de vender o que tínhamos que vender, o apartamento continuou estranhamente cheio. Nossas coisas de uso pessoal estavam em número muito maior do que imaginávamos. O que surpreendeu principalmente a mim, que cheguei no Chile apenas com uma mala de 23 quilos, um ano e oito meses atrás.

Já comecei a me irritar a com a nossa incrível capacidade para acumular tralhas. Diante do quadro, sabíamos que teríamos que enviar algumas malas além das permitidas pelo voo. Como pagar excesso de bagagem estava fora de cogitação – cobra-se 11 dólares por CADA QUILO excedente  - decidimos despachar as malas extras por LAN CARGO.

Ligamos para a LAN e as notícias foram ótimas. Para despachar 90 quilos – que era o que pretendíamos – o valor era de aproximadamente 200 dólares. As malas seriam entregues no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Ótimo, lindo, maravilhoso. Comecei a fazer as malas, com o cuidado de fazer cada peça de roupa virar uma bolinha minúscula. Muita logística e muita minúcia para conseguir enfiar tudo o que eu queria nas malas, ainda assim, foi necessário 1) comprar uma sexta mala. 2) aceitar que muita coisa teria que ficar lá, na casa da minha sogra.

Quando, enfim, já tínhamos tudo organizado, Osvaldo ligou novamente para a LAN para consultar o dia em que poderíamos despachar as malas (já era sabido que elas não iriam no mesmo voo que a gente). E aí meu estômago embrulhou  pela primeira vez. A pessoa informou que deveríamos fazer uma reserva com 48 horas de antecedência AND um documento listando e colocando o preço aproximado de CADA COISA que havia nas malas. Imaginem minha cara de felicidade desfazendo aquelas malas e listando tudo. 23 calcinhas. 4 ímãs de geladeira de girafa. É quase constrangedor e muito relevador sobre o excesso de coisas que acumulamos. Pois é, de novo eu voltei a ter essa reflexão. Isso é sério. Nós realmente temos muito mais do que precisamos. Teve coisa que eu entuchei na mala sem nem me dar conta e, na hora de anotar, veio a dúvida: “Por que diabos eu tenho isso?”.

Fiz, desfiz e fiz de novo as malas e me prometi uma vida minimalista no futuro. No dia anterior ao marcado para levar as benditas ao aeroporto, voltamos a ligar para a LAN, apenas para confirmar o horário. Ao que o simpático atendente pergunta: “A brasileira já tem o certificado emitido pelo consulado?”. Quase pulei em cima da telefone, mas Osvaldo me segurou e deixou o homem terminar de se explicar. Para não pagar impostos sobre meus pertences, eu deveria conseguir no consulado um comprovante de que morei no Chile por mais de seis meses e estava voltando para o Brasil.

Ok. Com o estômago embrulhando pela segunda vez, e morrendo de ódio pelas informações dadas homeopaticamente pelos funcionários da LAN, liguei para o consulado para saber como eu conseguiria tal certificado.  E fui informada que 1) para consegui-lo, eu deveria retirar, antes, um certificado de viagens na Polícia Internacional. 2) o certificado precisava de três dias úteis para ficar pronto.

Tudo bem era terça-feira, nós viajaríamos só no domingo. Daria tempo, certo? Errado, porque OBAVIAMENTE na quinta e na sexta seriam feriados. (E depois ainda dizem que o brasileiro é quem inventou o feriado).  Depois de choramingar ao telefone, a moça do consulado falou que se eu levasse o papel emitido pela polícia até às 13h daquele dia, ela conseguiria o certificado para a quarta-feira. Ufa!

Voei para a polícia. Eram 10h30. Cheguei achando que seria rápido e tcharam! Nunca vi um local tão cheio em toda a minha vida. Quer dizer, talvez eu já tenha visto. Mas naquele momento aquele parecia o lugar que mais esteve cheio em toda história da humanidade.

Peguei minha desoladora senha 174 (estava na 108) e chorei. Literalmente. Fiquei sentada sozinha em meio a estrangeiros do mundo todo (Osvaldo teve que sair para resolver outras coisas) enquanto remoía minha irônica situação. Eu havia estado no consulado brasileiro várias vezes na semana anterior, para resolver a transcrição do meu casamento pro Brasil. Se a primeira  (ou a segunda!) funcionaria da LAN tivesse mencionado que eu precisava desse certificado, já teria resolvido tudo isso. Tive vontade de ir embora, levar as malas no aeroporto e falar pro povo da LAN: pode cobrar impostos. 



Quando finalmente fui atendida, já eram quinze pra uma. Tomei um táxi, mas o consulado estava do outro lado da cidade. Eu estava no centro de Santiago e, pra variar, estavam acontecendo protestos que fechavam algumas ruas. Voltei para casa já conformada que teria que pagar os tais impostos, que eu nem sequer sabiam quais seriam.

(Se você está me achando muito burra porque eu não sabia de nada, parabéns pelos seus conhecimentos. Eu realmente estava perdida!).

No dia seguinte, quarta-feira, fomos ao consulado. A gente tinha que ir de qualquer forma para pegar nossa transcrição de casamento (como casamos no civil no Chile, continuávamos os dois solteiros no Brasil).

Meio sem esperanças, comentei com a senhora que nos atendeu que eu precisava do certificado de residência pra mandar minha bagagem de volta. Ela respondeu o que eu já sabia, que só ficava pronto em três dias úteis. Mas aí o poder hipnótico do Osvaldo entrou em ação. Sério. Este homem consegue convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa. Com dois minutos de conversa ele convenceu a senhora a fazer o documento para aquele mesmo dia. E ela fez!

Por volta das cinco da tarde corremos para o aeroporto com malas e documentos. Felizes e saltitantes porque havia dado certo. Mentira, o Osvaldo não saltita. Só eu. Mas, peraí, que trânsito era aquele? Ah, claro, véspera de feriado. Demoramos mais de uma hora para fazer um percurso que geralmente é feito em quinze minutos. Ou seja, chegamos depois das 18h. Aí veio a incrível notícia de que depois das 18h só despacha se pagar 90 dólares a mais. Estranho, não? Pra mim é assim: ou funciona ou não funciona depois das 18h. Juntamos as malas e voltamos pra casa. Na manhã seguinte, voltamos.

Desta vez, chegar ao aeroporto foi fácil. Difícil foi sair de lá. Perdi a conta de quantos papeis eu assinei, de quantos galpões eu tive que percorrer. Sei que o processo todo demorou – juro por tudo - quatro horas! O mais bizarro é que a sensação que eu tinha é que nós fomos as primeiras pessoas do planeta a recorrer a esse tipo de serviço. Para cada local que éramos enviados (seja para falar com funcionários do aeroporto, da aduana ou da LAN) tínhamos que explicar absolutamente tudo do zero, diante de caras de “do que vocês estão falando?”. Fomos bem atendidos por um único funcionário da LAN, chamado Patrício Rios. Educado, solicito e informado sobre o trabalho que fazia. O resto? Sério, pareciam estar descarregando na gente a amargura por trabalhar no feriado.

Depois de todo este sufoco, seria maravilhoso chegarmos em Belo Horizonte e encontrarmos nossas malas a nossa espera. Lamentavelmente não foi o que aconteceu. As malas chegaram em Guarulhos no dia 1 de novembro e no dia seguinte deveriam ser enviadas para Confins. Mas não foram! Agora a responsabilidade é da TAM, que deve fazer o transporte SP-BH. E emoção continua...


(Aguardem os próximos capítulos. Também estou aguardando)