terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sobre morar fora, empatia e casamento



Uma das características mais marcantes dos librianos é a diplomacia. Há quem chame isso de "ficar em cima do muro". Eu mesma chamava de "ficar em cima do muro" até algum tempo atrás, quando pensava não poder viver sem tomar algum partido, em qualquer situação. Mas acontece que - graças a Deus - uma hora minha ficha caiu. Aprendi a ponderar. Aprendi que não estou num desenho animado. Não estamos divididos no mundo entre corações gelados e ursinhos carinhosos. E o que eu chamava de "ficar em cima do muro", hoje eu chamo de "ter empatia". Aliás, desde que cheguei ao auge da minha "librianidade" ando meio fanática pela palavra empatia



Obviamente é impossível muito difícil se colocar no lugar do outro em toda e qualquer situação da vida. Mas na medida do possível, eu vou tentando e acho que isso tem feito de mim uma pessoa mais tranquila e mais respeitadora. 

Muito provavelmente eu tenha me apegado a essa, digamos, linha de pensamento há pouco menos de dois anos quando fui confrontada com duas situações que exigem muita, mas muita empatia: o casamento e a experiência de morar em outro país. 

Dentro da minha casa, era (e continua sendo) vital eu me colocar no lugar do meu marido para não surtar quando ele fazia (ou faz) alguma coisa que me irritava (ou irrita). Porque, sim, não estamos num conto de fadas e por mais que exista muito amor, amizade e respeito, vai chegar um momento em que alguma coisa vai acontecer e você terá vontade de surtar. E é na hora em que todos os litros de sangue do meu corpo me sobem à cabeça que preciso respirar fundo e pensar. "Ok. Nós somos pessoas diferentes, criadas de modos diferentes, em países diferentes, falando línguas diferentes". E ele, com toda a certeza, recorre ao mesmo pensamento diversas vezes. Quando morávamos aqui no Chile, em alguns momentos, ele chegava a expressar isso me dizendo "Tudo bem. Não vou discutir, você está com frio, está se acostumando, está com saudades de casa". E, nossa, como é bom enxergar no outro essa capacidade de se colocar no nosso lugar.

Do lado de fora, durante meu um ano e oito meses morando aqui no Chile, não era muito diferente. Embora fosse muito mais difícil. Afinal, eu amo meu marido e é muito mais fácil ter empatia por quem você ama. Com os outros, me custava um pouco, mas eu tentava. E, agora, que estou de volta ao Chile por duas semanas, continuo tentando. 

Dificilmente, pessoas que nasceram e viveram em outro país, com outra cultura, com outro clima, vão se comportar da maneira que esperamos. Porque nós esperamos o que é ideal para nós e o que é ideal para nós não é para o mundo inteiro. Por ter esse pensamento, duas situações me chateiam.

Primeiro e, obviamente, me chateio quando algum chileno fala mal do Brasil. Principalmente quando o fazem por meio de comparações com o Chile. Gente, a população do Chile é de 17 milhões de pessoas e a do Brasil de 200 milhões. Apenas para citar uma das diferenças abismais e dizer que simplesmente NÃO DÁ para comparar.  (E, né, aquele trem. Mesmo em ano de "imagine na Copa", a gente pode falar, os outros não). 

Por outro lado, também acho desagradável que tantos brasileiros que estão aqui no Chile por escolha falem mal do país. Ué, tá achando ruim, vai embora. Tem milhares de coisas aqui às quais eu não me adaptei. Mas não acho que sejam coisas ruins. São apenas diferentes do que eu estou acostumada. Além do Chile ter me dado muitas coisas boas, como, por exemplo, meu marido, sua família e as vivências que tive e tenho aqui. Prefiro divulgar a parte boa. 

A pessoa com que eu mais converso sobre isso é meu marido. Ele, que agora está vivendo no Brasil, às vezes me fala de algumas coisas lá que o desagradam e eu, por minha vez, sempre expus minha opinião sobre o Chile para ele também. Resolvemos essas diferenças culturais entre nós.

Porque a Cordilheira dos Andes é maravilhosa. Mas não existe no mundo um azul igual ao céu de Belo Horizonte. Porque os chilenos são cavalheiros, mas os brasileiros são de uma alegria ímpar. Porque o pão chileno deveria ser uma das sete maravilhas do mundo, mas comer uma coxinha de catupiry tomando uma guaraná gelado, não tem preço. Porque é muito interessante se reunir à mesa todos os dias para as refeições, mas é também bom demais poder comer a hora que quiser. Porque os dias enormes do versão chileno são uma delícia, mas é bom demais acordar às sete da manhã e poder viver porque - tcharam! - já tem sol.

O jogo do bom/mau ou certo/errado é uma viseira. Entender que somos todos diferentes é libertador, nos deixa muita mais abertos ao outro e, consequentemente, ao aprendizado. 


P.S.: este texto é uma observação genérica da minha experiência morando aqui no Chile e da minha relação com diversas pessoas ao longo daquele período. Não existe nenhuma menção velada a nenhuma pessoa ou situação específica. Como sou libriana e não curto confusão, achei por bem avisar. 
:)
P.S.2: imagem daqui.